A dissolução de Lula: um nirvana político
Por Pedro Breier
Eu acho que o Lula se tornou uma coisa muito maior do que um líder popular, uma figura carismática, um dirigente político etc. O Lula se tornou uma espécie de homem-ideia, uma espécie de homem-povo, em que ele, com o próprio corpo, condensa, concentra e materializa todas as características que são as características do próprio povo brasileiro. Com a sua origem nordestina, com a sua profissão metalúrgica, com o acidente que o mutilou, com a sua fala popular, ele é meio que uma materialização dessa ideia de povo, do povo que nós temos, que é o povo brasileiro, que se concretizou na figura do Lula. E o movimento de Lula na história é o movimento do próprio povo brasileiro em busca da sua autorrealização, em busa da sua tomada de consciência. O Lula é fruto da tomada de consciência do povo brasileiro e também é um instrumento dessa própria tomada de consciência. É uma ideia meio heggeliana-cristã-budista de materialização da ideia e de autorrealização da ideia no curso da história. E eu acho que o que nós vimos no último período foi mais ou menos isso, uma espécie de nirvana político-histórico-popular em que Lula se dissolveu na atividade do próprio povo.
Henrique Canary, historiador
Tente achar uma definição melhor para o que acabou de acontecer no Brasil – e falhe miseravelmente.
Não há imagem mais bela para a vitória de Lula (e, portanto, do povo brasileiro) nas eleições do a que de um “nirvana político-histórico-popular em que Lula se dissolveu na atividade do próprio povo”.
Isso pode parecer grandiloquente ou até absurdo, mas, diante do cenário atual, não é.
A ameaça à sobrevivência da espécie humana fica a cada dia mais evidente. Os cientistas alertam há décadas para os perigos do nosso modelo predatório de desenvolvimento, mas agora estamos presenciando as consequências em tempo real. Catástrofes climáticas estão entrando no noticiário do dia a dia, passando a fazer parte de uma macabra rotina.
E então, bem quando a única atitude sensata para a humanidade seria unir esforços para frear a catástrofe, volta o fascismo escancarado, com seus líderes ignorantes e caricatos (Trump, Bolsonaros, Milei) que costumam fazer exatamente o oposto do recomendado pela boa ciência.
Isso sem falar no cerne do fascismo: considerar grupos de seres humanos como inferiores. Essa visão é meio que inerente ao capitalismo, que convive muito bem com pessoas passando fome, vivendo na pobreza ou morrendo em guerras sem sentido.
O capitalismo é um sistema fascista por natureza, portanto. Porém, quando ele entra em uma de suas crises econômicas cíclicas, a faceta fascista fica escancarada, e surgem governantes grotescos para intensificar a repressão, as prisões, a deportação e a morte de pessoas, tudo em nome de aprofundar ainda mais uma concentração de renda e poder pornográfica.
A extrema-direita fascista vem crescendo no mundo há alguns bons anos, sob a liderança de Donald Trump. As big techs se juntaram às mídias tradicionais como porta-vozes das elites políticas e econômicas e como instrumentos – ainda mais eficientes – de manipulação em massa da população.
Percebam a gravidade do cenário: nessa toada, se continuarmos deixando o mundo à mercê de bufões tresloucados, vamos, a espécie inteira, para o buraco.
Mas aí entra em cena Lula, o Brasil personificado.
A direita subalterna a Trump varreu a América Latina, ganhando eleições por pequena margem de votos e com muita influência da manipulação da informação, além das já tradicionais chuva de dinheiro (a direita arrecada muito mais que a esquerda em doações para as eleições, adivinhe por que) e interferência americana por diversos meios.
O Brasil, maior economia e liderança natural do continente, era uma espécie de último bastião. E, graças à mítica de Lula conjugada com a maior mobilização popular da nossa história, se manteve de pé.
Lula como governante é absolutamente criticável. Sua política econômica, por exemplo, costuma ser muito recuada, muito mais à direita do que o Brasil precisa para se desenvolver.
Agora, contudo, Lula não é mais um simples governante. É um homem-ideia, um homem-povo, como disse Canary na abertura deste texto. Como o próprio Lula canetou em um de seus discursos mais impactantes, logo antes de ser preso, em abril de 2018,
Não adianta tentar acabar com as minhas ideias, elas já estão pairando no ar e não tem como prendê-las.
Não adianta parar o meu sonho, porque quando eu parar de sonhar, eu sonharei pela cabeça de vocês e pelos sonhos de vocês.
Não adianta achar que tudo vai parar o dia que o Lula tiver um infarto, é bobagem, porque o meu coração baterá pelos corações de vocês, e são milhões de corações.
Não adianta eles acharem que vão fazer com que eu pare, eu não pararei porque eu não sou um ser humano, sou uma ideia, uma ideia misturada com a ideia de vocês.
(…)
Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais poderão deter a chegada da primavera.
E a nossa luta é em busca da primavera.
Lula passou 580 dias preso injustamente – não há prova de corrupção contra ele nos processos da Lava jato. O juiz e o promotor foram considerados parciais. Saiu da prisão, voltou a ser presidente, e agora se reelegeu para o quarto mandato.
Para ilustrar a diferença entre Lula e seus atuais adversãrios, Jair Bolsonaro não aceitou a derrota em 2022 e tentou urdir um golpe de Estado. Está preso por isso. Seu filho, Flávio, fugiu pateticamente do Brasil após perder as eleições desse ano; se ficasse, provavelmente seria preso em virtude dos trocentos crimes que cometeu.
A vitória sobre Flávio Bolsonaro impediu a consolidação do poder de Trump na América Latina, ou seja, freou o avanço mundial do fascismo.
Não à toa, o L de Lula feito com os dedos polegar e indicador está ganhando o mundo. Na Espanha, México, Argentina, França e outros países a vitória de Lula inspira a luta dos povos contra o fascismo, contra a extrema-direita e sua marcha insana rumo à autodestruição da humanidade.
É um momento histórico, talvez uma virada para a humanidade, uma janela de possibilidade de salvação. E a nossa mobilização, de todo mundo que entrou em psicose política nas redes, nas ruas e nas conversas do cotidiano para virar votos, foi fundamental.
Idosos foram votar em Lula de andador, de cadeira de rodas, carregados pelos parentes. Pessoas que moram em lugares isolados encararam horas de viagem em embarcações para reeleger o presidente. Teve gente que gastou uma boa grana para viajar longos quilômetros e contribuir para a grande vitória.
Foi uma jornada épica.
Mas é evidente que esse é só o começo da batalha.
O fascismo continua forte, e precisaremos nos manter mobilizados para vencê-lo definitivamente.
Por isso mesmo o Videogame Cósmico vai passar a falar de política mais assiduamente, não só em época de eleição, como é nosso costume.
Nosso objetivo segue o mesmo: alcançar o nirvana e ajudar todos os seres a fazê-lo também. Se não dissolvermos a ilusão de identidade e de realidade dentro da nossa própria mente, a confusão, o sofrimento e a insatisfatoriedade não terão um fim.
No entanto, se não pararmos as mudanças climáticas não sobrará espécie humana para alcançar o nirvana (risos meio desesperados). Então precisamos unir nossa prática espiritual com a ação política. Essa foi a linha de sempre por aqui, mas quero destacar agora que a ação política é cada vez mais urgente e essencial.
E, nesse sentido, nada mais inspirador do que a imagem do nirvana político-histórico-popular do Lula.
Um ser humano que passou fome, que sentiu na pele as dificuldades da pobreza na periferia do capitalismo, que perdeu um dedo por conta da exploração do trabalhador pelos ricos e poderosos, que virou presidente e, com todos os limites e poréns, melhorou sim a vida do povo, e por isso mesmo é um líder respeitado e admirado por todos os sonhadores do mundo.
O ser humano Lula se dissolveu no povo brasileiro e na própria história.
A gente viu ele meio de pertinho no último ato antes do segundo turno, aqui em São Paulo, acenando para a multidão de cima do caminhão de som, e minha irmã Raquel comentou que era como se a História estivessse passando na nossa frente – o homem tem uma aura realmente impressionante.
Mas Lula só foi eleito porque nós, pessoas comuns, entendemos o que estava em jogo e fomos à luta. Milhões de brasileiras arregaçaram as mangas e foram virar voto, para produzir a vitória política mais espetacular das nossas vidas.
Por mais extraordinário que seja, nenhum ser consegue mudar sozinho a história do mundo. É preciso que cada um se dê conta de que precisamos agir coletivamente, porque aí não há manipulação de algoritmo ou governante alucinado que segure a avalanche.
No budismo se ensina que todos somos Budas. A mente búdica é a mente de todos os seres. A diferença de um Buda para um ser comum é que o Buda percebe que é Buda. Percebe o aspecto ilusório das suas identidades e opera a partir da mente primordial, ampla e livre, sem se fixar a nada.
Se todos somos Buda, todos somos Lula também. Como disse o próprio Lula, “Eu quero saber quantos dias eles vão pensar que tão me prendendo. E, quantos mais dias eles me deixarem lá, mais Lulas vão nascer neste país e mais gente vai querer brigar neste país, porque numa democracia, não tem limite, não tem hora para a gente brigar.”
Temos a capacidade de agir sobre o que chamamos de realidade. Temos a capacidade de inspirar outras pessoas a também agir, como a vitória de Lula está inspirando as lutas por liberdade em vários lugares do mundo.
Precisamos fazê-lo, para garantir a sobrevivência da espécie e para constuir sociedades mais justas e harmônicas. Um mundo assim favorece a prática espiritual e possibilita que os seres avancem nos seus caminhos de liberação.
O nirvana é o soltar de todas as fixações, a paz perfeita dentro da mente.
Politicamente, está na hora da humanidade abandonar a fixação ao fascismo e ao capitalismo e construir algo diferente, quem sabe alcançar uma espécie de nirvana político-coletivo.
Vamos à luta.
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