Dançando com as moscas

Por Pedro Breier

Tem um trecho da biografia da mestra Tenzin Palmo – o livro chama A Caverna na Neve – em que ela repreende o então namorado, ao vê-lo matar um mosquito. O namorado não entende aquilo e rebate: “É só um mosquito”! Tenzin Palmo então responde: “Pra você é só um mosquito, mas, pro mosquito, a vida dele é tudo que ele tem!”

Sempre lembro disso quando alguém me pergunta por que eu tento não matar insetos.

Pra nós um mosquito ou um inseto (ou mesmo outros seres humanos) podem parecer insignificantes. Porém, pra cada ser, a coisa mais valiosa que existe é a sua própria vida.

É por isso que matar gera um karma pesado; estamos arrancando do ser que matamos a coisa que ele mais preza.

No budismo, matar é uma das dez ações não virtuosas, e no primeiro retiro de meditação que fiz, havia a orientação de seguir alguns preceitos, e esse era um deles. Quando fui lavar o rosto na pia antes de dormir, no entanto, vi um mosquitinho sendo arrastado pela enxurrada de água que despencava da torneira. Fiquei levemente desesperado – não consegui manter o voto de não matar por mísera meia hora! – e em seguida aliviado ao perceber que o mosquito na verdade era um fiapo de madeira, como tantos outros que havia por ali.

Não é fácil não se envolver na morte de nenhum ser.

Mesmo a alimentação vegetariana envolve a morte de incontáveis insetos e outros animais, quando se inundam os campos para plantar arroz, por exemplo.

Mas, bem, não é porque mortes são inevitáveis que deveríamos cagar para a morte dos seres, correto? Em geral podemos ter todos os nossos nutrientes bem supridos por uma dieta sem carne animal. Então podemos ao menos evitar a morte de bois, galinhas, porcos, patos etc. Pra nós pode ser apenas uma galinha, mas pra galinha a vida dela é tudo que ela tem…

Está tudo interligado, afinal. O desmatamento colossal para criar gado, com suas vastas pastagens e imensas plantações de soja para produzir a ração que alimenta os animais, acelera as mudanças climáticas e coloca em risco a nossa própria sobrevivência.

Pensamos que estamos fazendo um grande negócio aprisionando e matando os animais para desfrutar de sensações agradáveis pelo paladar, mas na verdade estamos deixando um rastro de dor e sofrimento e armando um futuro sombrio pra todo mundo.

Além desses aspectos mais grosseiros, matar um ser deixa uma marca kármica negativa em nosso fluxo mental, segundo a visão budista. Sabemos bem como os hábitos se formam e como muitas vezes são difíceis de abandonar, uma vez instalados.

Se consideramos que nossa vida é mais importante do que a de outros seres, e expressamos essa visão por meio de atos que ferem e matam outros seres, essa marca mental se torna cada vez mais forte. Se você fuma cigarro todos os dias desde os 14 anos, a cada vez que você fuma, o hábito se fortalece.

Isso traz problemas ao longo de nossa jornada por incontáveis vidas. Se a vida é a coisa mais importante que cada um tem, e se eu desprezo a vida de seres que não são eu, em algum momento o choque entre essas duas forças antagônicas acontece – e aí sofremos as consequências da autoimportância extrema que damos a nós mesmos.

É claro que em alguns momentos matar seres é inevitável; se aparecer uma infestação de ratos na minha cozinha, provavelmente a solução envolverá a morte de seres.

Mas por que não evitar ao máximo as mortes desnecessárias, ao menos?

Algum tempo atrás apareciam no meu banheiro, especialmente no box, esses bichos que eu chamava de mosquitinhos, mas que são mais conhecidos por moscas de banheiro:

Em algum momento percebi que o jato da água do chuveiro pegavas algumas dessas mosquinhas desprevenidas e assim, de repente, a vida delas ia pelo ralo (literalmente).

Passei, então, a averiguar com atenção as paredes do box antes de ligar o chuveiro. Quando tem mosquinhas repousando por ali, toco gentilmente nas suas asas pra elas mudarem de lugar. E elas vão, algumas mais relutantes que outras, saindo da zona de risco, até que eu possa tomar o meu banho.

Algumas vezes perco alguns minutos fazendo isso, o que pode parecer um incrível desperdício de tempo, mas na verdade é apenas o básico: a vida das mosquinhas é tudo que elas têm!

Diante do tempo que perco vendo vídeos curtos em alguma rede social qualquer, acho que esses segundos dançando com as mosquinhas de banheiro são, na verdade, dos segundos mais bem aproveitados do meu dia.

(Ultimamente elas têm aparecido menos e eu sinto até falta do nosso tango esquisito.)

Espantar mosquinhas antes de tomar banho pode parecer coisa de maluco, mas isso não é nada diante do que seres avançados no caminho espiritual já fizeram em benefício de seres. Há histórias budistas em que esses seres entregam de bom grado seu corpo inteiro a algum animal que está com fome.

Shantideva, um mestre budista do século VIII, diz que toda a felicidade vem de ajudar os seres, e todo sofrimento vem de se importar consigo mesmo.

Podemos ir testando essa hipótese.

Evitar as mortes desnecessárias, mesmo de um aparentemente insignificante inseto, pode começar a abrir a nossa mente para a visão profunda de que, na realidade, sequer há separação entre nós e todos os outros seres.

P.S.: Quando a Dafne contou pra Mari (Dafne e Mari são as outras duas integrantes do Videogame Cósmico, pra quem não sabe) sobre este texto que eu estava escrevendo, este mesmo sobre as moscas de banheiro, a Mari lembrou de um episódio que vem bem a calhar. Ela passou dois anos em retiro de meditação, sob a orientação do Lama Padma Samten. Em uma ocasião houve uma infestação de cupins em um armário do centro de retiros. Essa talvez fosse uma ocasião em que um praticante budista comum considerasse inevitável matar os seres. Mas o Lama decidiu simplesmente retirar o armário e colocar em outro lugar, poupando a vida de todos os cupins, e construir um armário novo. Não é lindo isso? A Mari disse ainda que sempre lembra de uma frase maravilhosa do Lama sobre esse tipo de dilema: a vida das traças vale tanto quanto a vida de quem está lendo o livro. 

P.S. 2: Uma sincronicidade bonitinha. No dia em que a Dafne me contou essa história que a Mari havia lhe contado, fui asssistir a um documentário sobre o Luis Fernando Veríssimo, meu ídolo literário. E aí, no meio da exibição de trocentas crônicas e charges do LFV, apareceu exatamente essa aqui:

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