Como acabar com as guerras
Por Pedro Renato
Para alcançar o modesto objetivo deste texto, vamos abordar o problema – como acabar com as malditas guerras, afinal – de duas perspectivas: a absoluta e a relativa.
Começaremos com a abordagem absoluta, que é a única que realmente funciona.
ABORDAGEM ABSOLUTA
As guerras são consequência de uma ignorância fundamental sobre a realidade. Os seres humanos pensamos que somos seres:
1 – Reais
2 – Separados de todo o resto da existência
Nossa mente opera a partir dessas premisas básicas. Sequer pensamos sobre isso. Parece autoevidente que somos seres reais e que somos separados do resto da existência.
A partir dessas percepções fundamentais, surge a sensação de que esse ser real e separado de todo o resto é a nossa prioridade número um. Primeiro devemos pensar na nossa própria sobreviência e bem estar. Depois, se der tempo, talvez a gente pense nos outros. Mas não muitos outros também; apenas os da nossa família, talvez do nosso país, da nossa cor de pele. Os de algum modo diferentes evidentemente não são tão importantes quanto os meus.
Esse fenômeno de nos considerarmos mais importantes que todos os outros dá origem aos mais variados conflitos, desde duas crianças brigando pra ver quem brinca com o caminhão de plástico até senhores idosos tresloucados ordenando bombardeios sobre escolas e hospitais. Alguém só é capaz de mandar incinerar crianças e doentes se estiver completamente embriagado pela percepção de que a sua vida é muito mais importante do que a vida dos outros.
Acontece que não somos seres reais. Nem somos separados de todo o resto.
Nossas múltiplas identidades, que nascem e morrem o tempo todo, são construídas pela mente. São como aparições mágicas.
E tudo que surge desse modo mágico está irremediavelmente interconectado. Tudo está tão interconectado que, quando fazemos boas ações, isso tem consequências evidentes no nosso ambiente. Tudo melhora. Quando cometemos ações negativas, as coisas em algum momento pioram. É claro: o ambiente e os outros seres reagem aos estímulos que recebem, assim como nós reagimos. Isso é, basicamente, como o karma funciona.
Não compreendemos essas coisas, e agimos como se fôssemos realmente reais e separados do resto. E aí entramos em conflitos, dos mais bestas até as guerras globais sanguinárias.
Só tem um jeito de acabar com as guerras, portanto: todos treinarmos as nossas mentes para que elas percebam a natureza da realidade e a interconectividade de todas as coisas. A partir dessas sabedorias, as ações benéficas fluem naturalmente e os conflitos desaparecem.
Ou seja, todos temos que alcançar a sabedoria espiritual profunda para acabar com a palhaçada de vez.
Talvez isso demore algum tempo, e é por isso que vamos abordar o problema desde a perspectiva relativa também.
PERSPECTIVA RELATIVA
A perscpetiva relativa é a perspectiva comum, que surge todinha da ilusão de que somos seres reais separados uns dos outros por contornos bem definidos. A partir dessa ilusão básica de separação entre o eu e o cosmos surgem outras, muitas outras, infinitas outras formas de separações ilusórias. A minha família, o meu terreno, o meu salário, o meu time de futebol, o meu país, o meu poço de petróleo, o meu território, os meus bilhões. Delimitamos linhas imaginárias entre o que é meu e o que não é, e disso surgem as tretas entre os vizinhos e as guerras mundiais.
Dentro da perspectiva comum, vivemos (o mundo todo), há séculos (milênios?), sob a égide do imperialismo, que é quando um ou mais países poderosos econômica e militarmente resolvem ficar ainda mais poderosos e passam a invadir, saquear, subjugar, escravizar, matar e dominar outras populações – e roubar seus recursos naturais, é claro, por que não.
Os países europeus foram essa força imperialista por muitos séculos; a colonização da América do Sul, da África e da Ásia deixou um rastro de sangue e terror. Curiosamente, aprendemos que o episódio máximo de horror produzido pela humanidade foi o nazismo de Hitler, mas, na verdade, todo o horror que o nazismo produziu a Europa já vinha produzindo há muito tempo nos outros continentes. A diferença é que as vítimas eram pessoas não brancas, e aí o ocidente basicamente não se importa: se você não é branco e não pertence a uma determinada classe social e não mora em algum dos países do centro do sistema capitalista (essas condições precisam ser cumulativas), a supostamente ilustrada cultura ocidental vai mandar um grande foda-se caso você seja escravizado, violentado ou morto.
Agora o centro do império são os Estados Unidos da América, e a Europa se tornou uma espécie de vassalo útil. Os EUA é um país dos mais agressivos da história humana. Utilizaram uma bomba atômica contra uma população civil; derrubam governos que não lhes são submissos; invadem países, matam a população, bombardeiam hospitais, escolas, universidades, indústrias; roubam os recursos naturais e deixam um rastro de destruição para trás.
E, pasmem, se vendem como o modelo mundial da democracia e da liberdade!
Precisamos conhecer a história, para entender que nossa visão de mundo é moldada pela máquina de propaganda do império. Como pode tanta gente admirar os EUA e realmente considerá-lo um país modelo? É o chamado soft power, o tipo de poder que as nações obtêm, por exemplo, por meio de doutrinação ideológica disfarçada de cultura de massa. Ou você acha que é por acaso que os vilões dos filmes americanos sempre são russos ou latinos?
É importante entendermos essas coisas, até mesmo para percebermos o quanto nossa visão de mundo está contaminada por propaganda americana subiliminar (ou nem tanto) absorvida ao longo de décadas de vida.
E então chegamos à época atual, em que Israel (um estado artificial encrustado pelos ingleses no meio do Oriente Médio, evidentemente para ser uma espécie de base militar do império em uma região cheia de petróleo) comete uma das maiores barbaridades da história humana, a destruição de Gaza e a morte de incontáveis palestinos, incluindo dezenas de milhares de crianças(!). Não satisfeito, e indicando que seu plano é mesmo ser o império do Oriente Médio, Israel arrasta os EUA para uma guerra contra o Irã – que estava quieto na dele e não representava uma ameaça aos EUA segundo a própria inteligência americana.
Israel tem bombardeado, aliás, diversos países da região. O mais recente é o Líbano: milhares de civis mortos, milhões tendo que abandonar suas casas, escolas, hospitais, vilas inteiras, tudo destruído. Tudo com a cobertura da mídia ocidental inteira, que noticia com frieza, no melhor dos casos, essas atrocidades.
Porém, EUA e Israel, acostumados a atacar populações indefesas de civis com bombas jogadas de aviões, estão agora sofrendo nas mãos de um país que se preparou por décadas para um ataque desse tipo. O Irã está se defendendo de todas as formas, destruindo bases americanas no Oriente Médio e atacando diretamente Israel.
Um dos primeiros atos da guerra foi o bombardeio de uma escola de meninas no Irã. Mais de 150 meninas estavam na escola e foram assassinadas pelas bombas dos EUA e Israel. É o padrão de alvo desses países: escolas, hospitais, jornalistas. Seus exércitos são especialistas em cometer terrorismo. A guerra sempre é bárbara, mas até na guerra existe ética. EUA e Israel não observam ética alguma; seu método é infligir o máximo de terror possível na população dos países inimigos. As respostas do Irã têm sido contra alvos militares. É, sem dúvidas, o lado ético do embate – até porque foi agredido e está simplesmente reagindo.
Mas se a gente for assistir a alguma reportagem da Globo, por exemplo, poderemos ficar com a impressão de que o Irã é que está provocando a confusão. EUA e Israel são apresentados como os good guys, e os iranianos são os vilões. O sumiço de um piloto americano merece mais comoção e mais tempo de reportagem do que o de centenas de meninas mortas. É claro: os grandes veículos de mídia têm conexões umbilicais com o capital financeiro e com o império. São agentes do império nos países colonizados. Não fazem jornalismo; fazem propaganda disfarçada de notícia.
Joseph Goebbels ganhou uma péssima fama como o propagandista de Hitler – hoje seria o seu head de marketing – mas eu honestamente não vejo a menor diferença entre Goebbles e a imprensa ocidental inteira. Basta lermos as manchetes sobre Gaza, Irã e Líbano: os horrores cometidos por EUA/Israel/Europa são noticiados com frases com sujeito indeterminado, do tipo “explosão mata centenas no Irã e mergulha a cidade em fumaça tóxica” (isso realmente aconteceu), sem nomear o agressor. Massacres como o da escola de meninas são noticiados com frieza e brevidade. Agora, se o morto for um americano ou israelense, vemos extensas reportagens sobre a dor da família e tudo mais.
Imaginem o escândalo se uma escola com mais de cem meninas fosse bombardeada nos EUA ou em Israel! Como são meninas árabes, a atrocidade merece no máximo notinhas de rodapé. Um grande foda-se.
Sem essa construção incessante da narrativa nazista, talvez os dirigentes do império não se sentissem tão à vontade para explodir universidades, hospitais, escolas e pessoas, muitas pessoas.
As big techs são instrumentos modernos muito efetivos para que o império amplie seu poder de controle e de propaganda. O mundo assiste impotente, há mais de ano, em tempo real, Israel destruir Gaza. Trump ameaçou apagar uma civilização inteira do mapa, com essas palavras mesmo, e isso foi noticiado com naturalidade por uma parte da imprensa e comemorado por boa parte da população ocidental.
O problema nunca foi apenas Hitler.
Hitler, Trump, Netanyahu, são apenas expressões grotescas da nossa ignorância cristalizada em grupos sociais inventados (países, coalizões geopolíticas). Tanto é assim que eles podem ser até mortos e execrados, mas ressurgem de tempos em tempos, são eleitos, reeleitos, ameaçam explodir o planeta inteiro e, incrivelmente, continuam no poder.
Esse fato, o de continuarem no poder, ao menos revela com absoluta clareza a farsa da democracia ocidental. A imprensa ocidental arrota arrogância, enche a boca para falar da “ditadura” chinesa, cubana, russa, venezuelana. Mas a verdade é que a democracia ocidental é uma completa picaretagem. É o dinheiro quem manda nas nossas eleições, e se um maníaco genocida estiver no poder, ele pode explodir o mundo e nada acontece com ele.
A China, com seu partido único comunista (graças a deus), é zilhões de vezes mais democrática do que qualquer país ocidental. Se você acha que não, procure saber como anda a pobreza na China e quanta gente mora na rua e como é a participação da população nas decisões dos centros de poder. Se o nível de pobreza e a quantidade de gente morando na rua não são critérios oficiais para verificar o quanto um país é democrático, bem, tá na hora de mudarmos esses critérios.
A China aliás, é a esperança da humanidade, em termos de realidade relativa. Os chineses, em poucas décadas, mostraram ao mundo que o socialismo é muito, mas muito superior ao capitalismo. No modelo ocidental, os EUA, as corporações têm prioridade sobre os cidadãos, hospitais jogam as pessoas na rua se não tiverem dinheiro para pagar a conta e o presidente é acusado, com fartas evidências, de ser pedófilo.
Na China, castigada pelo imperialismo durante muito tempo, a pobreza extrema foi simplesmente erradicada e sua economia é voltada para o bem comum, com distribuição de moradia, o transporte público mais avançado do mundo, uma política externa que busca se associar aos outros países para cooperar com eles, e não para achacá-los.
Outro exemplo para o mundo é a fibra moral dos iranianos. Quando Trump ameaçou apagar a sua civilização inteira, bombardeando suas fontes de energia, a população se aglomerou em volta das usinas nucleares. Preferiu arriscar a própria vida a se submeter às ameaças delinquentes do bullie do mundo. É realmente um povo que não teme a morte e tem clareza e coragem para enfrentar o demônio imperialista.
Mas vamos falar de coisa boa, como dizia o poeta. Toda essa desgraça, afinal, essa volta do nazismo escancarado e mal disfarçado, os massacres cometidos por Eua/Israel/Europa, na verdade tudo isso parece prenunciar, por mais estranho que possa parecer, um futuro melhor. O império está nos seus estertores, e um mundo multipolar é basicamente inevitável.
E, no fim, eu apenas divaguei aqui e não cheguei ao ponto de como podemos acabar com as guerras dentro da perspectiva relativa. Na verdade isso é impossível, porque no samsara, que é o mundo dos seres que não alcançaram a sabedoria espiritual profunda e estão presos na ilusão da separatividade, pois no samsara não há um bom futuro possível que seja estável. Podemos até construir um mundo incrível, mas ele estará sujeito à impermanência e em algum momento provavelmente a desgraça vai se abater sobre nossas cabeças de novo.
Mas não deixemos esse fato nos desanimar. Faz parte do caminho para a felicidade suprema – a sabedoria espiritual profunda da não dualidade, o nirvana – também melhorarmos as condições do mundo, inclusive para favorecer a jornada dos seres rumo à libertação. Então é bom que o imperialismo esteja chegando ao fim, e Inshallah a humanidade possa viver mais harmoniosamente, colaborando. (É tão óbvio que isso é melhor pra todo mundo né gente, que loucura, alguém conta isso pros Trumps, Netanyahus e Bolsonaros da vida.)
E o que nós, brasileiros, podemos fazer daqui, da nossa condição na periferia do sistema capitalista?
Bem, esse ano tem eleição, e acho que eleger o Lula é o melhor que podemos fazer, já que o Lula é um ator importante e reconhecido internacionalmente nessa busca pela paz mundial e pelo fim da fome. Se o Lula perder a eleição para um Bolsonaro da vida, o Brasil se alinhará ao nazismo do século XXI nos próximos anos, e não queremos isso, certo?
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O samsara não tem muita solução, mas o que der pra fazer dentro da realidade relativa, melhor a gente fazer. Então bora v0tar no Lula, se der também arrumar uns votinhos porque pelo jeito a briga vai ser feia, e bora se manifestar nas redes sociais ou nas mesas de bar ou nas rodas de amigos, sempre contra o autoritarismo, o massacre de civis e crianças, a guerra, o nazismo, o imperialismo, contra qualquer tipo de opressão. Bora fazer o que der pra construir um mundo melhor.
Sem esquecer da nossa prática, rumo ao nirvana, que é o que realmente resolve mesmo – imagina todo mundo no nirvana, a paz perfeita dentro da mente, a sabedoria de que é tudo interconectado sempre presente no fluxo mental de todos os seres… a guerra vai ser só uma lembrança esquisita de um passado longínquo.
Inshallah