Quanto tempo por dia preciso meditar?

Por Pedro Breier

 

Antes de mais nada, se você nunca meditou, experimente (e nem precisa me agradecer depois, tá tudo certo). Basta sentar em uma posição confortável, coluna ereta e corpo relaxado, e observar sua respiração. Quando perceber que se distraiu – e isso vai acontecer incontáveis vezes, fique tranquila – apenas retorne a atenção para a respiração.

Pronto, você está meditando.

E, antes de responder à pergunta do título que eu mesmo me fiz, preciso dizer que 20 minutos de meditação por dia é melhor que zero. 10 minutos de meditação é melhor que zero. 5 também. 1 minuto de meditação também é melhor que zero. Um reles segundo de meditação é melhor do que nada de meditação. Uma fração infinitesimal de segundo de meditação por dia é muito melhor do que zero. E isso não são apenas palavras para gerar um efeito retórico impactante — é a pura realidade.

Agora, vamos à resposta, ou melhor, às respostas dos especialistas. Não, destaque-se, especialistas tipo um comentarista de futebol que não sabe jogar bola ou um economista que simplesmente repete propaganda capitalista senso comum na televisão, mas especialistas que realmente sentaram a bunda na almofada e meditaram com afinco e constância. Ou seja, como bons cientistas, testaram hipóteses e chegaram a conclusões baseados na experiência.

 

Resposta nº 1: durante a meditação o tempo não existe

Há uns nove anos, quando estava em uma prática guiada da ordem Rosacruz, ouvi uma explicação sobre meditação que eu nunca esqueci: não importa muito quanto tempo você está meditando, já que, durante a meditação, o tempo não existe.

Uau.

Fiquei impactado e hoje acho que entendo um pouco melhor essa ideia. De fato, se você está concentrada num ponto, ou com a mente aberta repousando em seu estado natural, o tempo como conhecemos deixa de existir. O tempo depende do nosso raciocínio lógico conceitual para fazer sentido. Vamos medindo o tempo para nos organizar – mas quase sempre passamos do ponto e somos torturados pelas urgências infindáveis que nós mesmos vamos encaixando em uma linha do tempo mental — disforme porém sempre rondante, como uma assombração ou um obsessor. Se suspendemos o raciocínio e focamos em um objeto, naquele momento, para a nossa mente, só existe aquele objeto, e mais nada. O tempo meio que fica suspenso.

Se você achar que está meditando pouco, portanto, lembre-se: enquanto você está meditando, o tempo sequer existe. Relaxe e faça o que puder.

 

Resposta nº 2: Uma hora por dia é muito bom

Essa resposta é do Marcelo Nicolodi, um praticante de meditação experiente e tutor do CEBB, o centro de estudos budistas conduzido pelo Lama Padma Samten. Uma hora por dia é um bom tempo de meditação, é realmente poderoso. Transforma a mente e a vida, sem dúvidas.

Parece muito tempo? Bem, a gente fica rolando feed de rede social algumas horas por dia, em geral, então não é como se fosse um grande absurdo meditar uma hora por dia.

Pode parecer muito, mas você pode dividir em quatro sessões de 15 minutos, dar uma alongada a cada vez que o alarme do celular tocar. Quatro sessões de 15 minutos soa diferente do que UMA FUCKING HORA INTEIRA, não soa? É porque o tempo é totalmente relativo, depende da nossa mente conceitual, como comentamos acima, então podemos usar alguns truques pra meio que enganar a nossa própria mente, tentar não chocá-la de cara assim (ela às vezes é meio impressionável e temperamental).

Você pode também meditar meia hora ao acordar e meia hora antes de dormir, por exemplo, e voilá, você meditou uma hora no seu dia.

Qualquer tempo de meditação é melhor que zero; porém, por experiência própria, tendo a concordar com essa ideia de que uma hora de meditação por dia é um tempo muito bom. Não toma tanto tempo assim (você vai sobreviver com 20 reels a menos no seu dia, eu prometo) porém é muito impactante. Meditando uma hora por dia você rapidamente perceberá uma melhora na qualidade da sua mente, terá mais paz, tranquilidade e sabedoria pra lidar com o que quer que surja internamente ou externamente, e então ficará mais motivada pra meditar ainda mais. É só bom, experimente e depois me conte (ou não me conte também, fique à vontade).

 

Resposta nº 3: Três horinhas pra alcançar a iluminação em uma única vida 😀 

Agora, se você quer alcançar a iluminação logo, se cansou de vagar pelo samsara (estamos fazendo isso desde um tempo sem princípio, disse o Buda, o que deve ser tempo pra caralho), a recomendação do Lama Alan Wallace, que lhe foi dada por seus mestres, é no mínimo 3 horas por dia.

O caminho da iluminação pode ser longo: o Buda demorou 3 éons pra alcançar, e 1 éon é um pouco demorado, é o tempo em que um universo existe entre o seu surgimento e a sua dissolução. Em anos humanos pode chegar a trilhões de anos, mas é uma escala tão absurda que o Buda exemplificou com metáforas como essa:

Imagine uma rocha maciça de granito com cerca de 16 km de largura, 16 km de comprimento e 16 km de altura. Se uma pessoa passasse um pano macio de seda sobre essa rocha uma única vez a cada 100 anos, a montanha se desgastaria completamente até sumir antes que um único kalpa terminasse.

Ou seja, pode demorar.

No budismo tântrico, contudo, chamado de Vajrayana, temos a possiblidade de alcançar a iluminação em uma ou poucas vidas humanas, nos valendo de práticas e visões próprias desse veículo. Em outra oportunidade podemos entrar em mais detalhes sobre isso, mas o ponto aqui é que o Lama Alan Wallace recomenda no mínimo três horas de meditação diária para alcançar esse objetivo (sendo que o ideal provavelmente é mais, bem mais rsrs, mas vamos focar em três).

Aí é mais desafiador, reconheço, se considerarmos a rotina média de um ser humano vivendo na era do capitalismo apocalíptico ultraestimulante de alta densidade de informação.

Porém, considerando que estamos mesmo há incontáveis vidas perambulando no samsara sem encontrar a felicidade definitiva, talvez faça sentido focar, a partir de agora, em alcançar o nirvana, que é exatamente a paz perfeita, a felicidade genuína que transcende a própria morte – porque quando o corpo morre, a mente do ser que alcançou o nirvana continua operando, imersa nessa paz inebriante que deve ser ótima.

Considerando esse cenário mais amplo, uma escala temporal de trilhões, quatrilhões ou quinquilhões de anos, três horas de meditação por dia não parece algo tão absurdo.

Nos retiros de meditação se medita (muito) mais que isso. O momento em si da prática pode ser desafiador, com as dores no corpo e a confusão mental e a dificuldade de manter a atenção e o esforço para não dormir e tudo. Tem momentos maravilhosos também, em que a mente relaxa, fica calma como um plácido lago brilhante em uma floresta, e a gente sente o gostinho do nirvana.

Durante a prática oscilamos entre ceús e infernos, mas é sempre positivo: quanto mais praticamos meditação, mais a mente fica saudável e afiada e feliz.

Minha meta nesse momento da vida é duas horas por dia, uma de manhã e uma de noite, mas não custa sonhar com acrescentar meia hora em cada momento e chegar nas três horas mágicas.

Ah, um outro truque é estudar junto com a meditação. Só meditar observando a respiração, por exemplo, pode ser maçante. Então é uma boa ideia pegar um livro budista e estudar durante a prática.

Estou falando do método pensar, contemplar e repousar, recomendado por muitos mestres. Uma mestra diz que a gente avança devagar no caminho porque não faz isso, ou seja, esse método acelera a jornada de liberação da mente.

Pensar é ler ou ouvir os ensinamentos; contemplar é pensar sobre eles, buscar exemplos na própria vida, questioná-los; repousar é soltar todo o raciocínio conceitual e meditar, deixar a mente realxada no seu estado natural.

Você pode fazer nessa sequência, mas eu faço assim: medito, por exemplo, meia hora, concentrando na respiração ou deixando a mente no seu estado natural, sem foco específico (a mente observando a si própria); em seguida pego um livro budista e vou lendo, e vou refletindo sobre o que leio, e, quando algo me toca, solto o livro e medito mais um pouco, deixando a mente repousar, e depois pego o livro de novo e repito o processo.

Na minha experiência esse método funciona muito, porque os ensinamentos deixam a meditação mais profunda, e também me instigam a seguir praticando, pois quero terminar aquele livro pra poder ir explorando outros ensinamentos (que são basicamente infinitos e sempre maravilhosos). Ressaltando que a ideia não é ler como se fosse um livro normal, mas sim ler com calma, devagar, e ir refletindo e meditando durante a leitura.

De toda forma, teste: se você preferir apenas focar na meditação durante todo o tempo, e ler menos, faça isso. Cada mente é de um jeito, há métodos variados que servem para variados tipos de mente.

 

Resposta nº 4: Jack Kornfield

Jack Kornfield é o nosso próximo especialista, um americano que foi treinado como um budista leigo e também como monge sob a orientação de grandes mestres do budismo Theravada na Tailândia, Birmânia e Índia, e depois passou a ensinar meditação no ocidente. Em seu livro Living Dharma, em que ele apresenta ensinamentos de mestres Theravada, Kornfield diferencia a prática intensiva da não intensiva. 

Elas podem ser utilizadas separadamente ou combinadas, de acordo com as necessidades e estilo de vida da meditadora.

A abordagem não intensiva busca encaixar a prática na vida cotidiana para ajudar a pessoa a desenvolver sabedoria durante suas atividades normais, em um ritmo natural. Ela enfatiza que a meditação é praticar um jeito de ser; não é necessariamente uma prática intensiva e isolada. Essa abordagem permite um desenvolvimento gradual da sabedoria por meio de meditação diária e atenção plena natural. É um caminho sem insights brilhantes, ou seja, sem experiências meditativas profundas e impactantes. Não há os picos de prazer e felicidade (também chamados de bem aventurança) e de alta concentração da mente. O porém é que este pode ser um caminho difícil de seguir sem a suplementação de uma prática intensiva. É um caminho mais lento, então podemos nos sentir desencorajados. Além disso, é difícil manter a lucidez no meio de uma vida ocupada e agitada. Nossos desejos, tédio e sofrimentos diários fazem com que seja difícil continuar praticando. A tranquilidade e os picos de concentração surgem vagarosamente. Mas a abordagem não intensiva tem grandes vantagens. A sabedoria alcançada é duradoura e forte. O apego aos picos de felicidade e concentração excessiva é evitado (sim, a felicidade transitória e a concentração que podem ser atingidas por meio da meditação intensiva também podem virar objetos de apego e atrapalhar o caminho da liberação). E, por fim, já que, na realidade última, não há nada para conquistar e nenhum momento além do agora mesmo, a prática diária momento a momento é para onde tudo converge.

prática intensiva de muitas horas por dia em retiros pode desenvolver uma forte concentração e insights profundos rapidamente. Nessas sessões intensivas, meditadoras passam 15 ou mais houras por dia sentando e caminhando em meditação continuamente. A mente se torna tranquila e, à medida que a concentração e a consciência se aprofundam, insights penetrantes surgem – ou seja, a pessoa vai adentrando na visão profunda sobre a realidade autêntica das coisas. Com alguma frequência, meditadoras em retiro experienciam dor ou prazer intensos, e varios fenômenos ou distrações, como ver luzes, visões, sentir o corpo flutuando, tremendo ou se movimentando espontanemente. A concentração elevada e o prazer/felicidade, que muitas vezes resultam da prática intensiva contínua, se combinam com o insight profundo sobre o Darma (que é a real natureza das coisas) para fortalecer a prática e a fé. Essa experiência é de uma importância enorme; é uma base sólida para a meditação em meio às atividades cotidianas.

Tanto a prática intensiva quanto a diária natural são recomendadas pelo Buda. São dois caminhos válidos, e nós temos, no ocidente, a oportunidade de experimentar o melhor das duas abordagens. Podemos meditar durante o nosso dia a dia, tanto sentados na almofada quanto fazendo qualquer outra coisa, e também podemos fazer retiros em algum centro budista – há muitos espalhados pelo Brasil todo, como os CEBB, do Lama Padma Samten, por exemplo.

Meu objetivo é tirar uns 20 dias por ano pra fazer um retiro de meditação, e fazer mais alguns em finais de semana, já que o trabalho não permite retiros mais longos. A Mari, parceira aqui do Videogame Cósmico, juntou umas economias, pediu demissão e fez um retiro de dois anos! Pense numa estratégia interessante pra você, mas não deixe de considerar a importância desses períodos de afastamento, pra fortalecer e aprofundar a prática em meio à rotina do dia a dia.

E não esqueçamos do conselho do Jack Kornfield: retiros são importantes, mas em qualquer lugar que estejamos agora mesmo, este é o tempo e o lugar para começar/continuar a nossa prática.

 

Resposta nº 5: Lama Padma Samten

Pra fechar, vamos com as palavras insuperáveis do mestre principal do Videogame Cósmico, o fabuloso Lama Samten:

Pergunta: Para que a meditação seja efetiva, quanto tempo de meditação seria o mínimo por dia?

Resposta: Eu acho que o pessoal sugeriu aqui umas três horas. [Risadas] Não, isso aqui é só brincadeira. Essa resposta não é muito fácil, assim, né? As respostas nunca são muito fáceis. Mas eu diria assim, se tu tiver a intenção de praticar, e praticar assim, focado, o tempo não é a questão. Por quê? Vamos supor que tu pratica dez minutos focado; aquilo deixa um resíduo na tua mente que vai produzir benefícios durante o dia. E é provável que logo em seguida tu vai querer praticar mais, e praticar mais. Então o ponto mais importante é que aquela prática seja favorável pra ti. Esse é o ponto. Então eu acho que tu não deveria lutar contra alguma coisa para poder ficar praticando por mais tempo. Aquilo tem que ser bom. Tipo assim, um doce de leite mineiro. Quanto que tu tem que comer de doce de leite pra ficar apegado? Não precisa ser muito né. [Risadas] Se o doce de leite é bom, aquilo vai, entende? Então o ponto é esse. A gente senta, e a meditação… uaauuuu! Ela tem que ser uma meditação boa. Então aquilo vai ampliar naturalmente, né? Aí tu vai descobrindo os truques, botar um pedacinho de queijo junto, aquilo já… Já vai aumentando. [Risadas] Tu vai descobrindo o jeito. A meditação, se tu juntar com um nível de sabedoria, aí aquilo tudo vai se ampliando. Boa sorte aí. Mas a coisa do doce de leite era brincadeira, melhor não, viu. [Risadas]

[Veja o vídeo da fala do Lama]

Aqui o Lama simplifcou as coisas para nós. Já tentei muitas metas de meditação, às vezes consigo cumprir, outras vezes não. Mas o que funciona realmente é isso: simplesmente começar a praticar. Os efeitos são tão evidentes, os benefícios na nossa vida ficam tão claros, que naturalmente vamos voltar a meditar, cedo ou tarde, e a prática se aprofundará.

Programar é importante, mas, na dúvida, apenas sente e comece/continue sua prática. A partir da prática a mente, o mundo, a nossa rotina, a realidade inteira, se abrem. E aí tudo fica mais fácil.

 

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