Tô cansado da minha mente
Pedro Breier
Meu primeiro contato com os ensinamentos budistas se deu em 2017, mesmo ano em que comecei a meditar. Minha relação com o budismo foi se aprofundando desde então, e hoje digo aos quatro ventos que sou budista.
Um budista iniciante – nos primeiros dez anos de budismo você é iniciante, diz-se. Ainda assim, um budista que fica a cada dia mais impressionado com a acurácia dos ensinamentos.
O budismo não é exatamente uma filosofia, nem uma religião. Nem um “estilo de vida”, como me dizem quando digo que o budismo não é uma filosofia nem uma religião.
Pra mim, é um método de investigação da mente e da realidade. Insuperável, em relação a todos os outros com que tive contato.
O Buda apresenta a possibilidade da felicidade definitiva e da compreensão total da natureza da mente e da realidade – o nirvana. Eu acho que só o fato de alguém propor essa possibilidade deveria fazer o mundo inteiro parar tudo que está fazendo e começar a investigar.
Não encontrei na vida nada remotamente próximo da profundidade e da genialidade dos ensinamentos budistas. As amostras grátis de nirvana que você começa a encontrar na meditação deixam ainda mais claro que o darma – como são chamados os ensinamentos do buda – é realmente impressionante.
Ainda assim, tem dias que me sinto apenas um hipócrita.
Quase 10 anos de meditação, estudo e propaganda budista (só falta eu bater de porta em porta pra virar uma Testemunha de Buda) e continuo, vez após vez, me enredando nas construções de realidade operadas pela minha mente.
O resumo do resumo do resumo dos ensinamentos budistas poderia ser o seguinte: tudo o que percebemos como realidade é inseparável da nossa mente. Tudo que surge para nós, interna ou externamente, são, ao fim e ao cabo, aparências dentro da nossa própria mente. Toda a nossa insatisfatoriedade e ansiedade e medo constantes brotam da ausência de visão correta sobre a natureza das coisas. Pensamos que elas são reais, e portanto queremos obter algumas coisas e nos afastar de outras e isso basicamente não tem fim. Mas é possível escapar desse ciclo (o famigerado samsara) e alcançar a paz perfeita dentro da mente – o nirvana.
À medida que você vai estudando isso e meditando sobre isso, a coisa vai ficando muito clara. É evidente, quase óbvio, que todo o meu sofrimento surge de cenários mentais construídos pela minha própria mente. Não tem como desver isso.
Ainda assim, dia após dia estou dentro de um desses cenários mentais, absolutamente apegado ao personagem escalado para o episódio da vez, angustiado porque eu queria alguma coisa e não estou conseguindo, ou porque não queria alguma outra coisa mas estou tendo que lidar com ela.
E aí me sinto um hipócrita (e idiota também). Quem sou eu pra dizer que sou budista ou que o budismo é maravilhoso, se não consigo me desvencilhar dessa maldita e infindável construção constante de cenários mentais?
Veja bem, o problema não são os ensinamentos. No nível intelectual não me restam muitas dúvidas sobre a precisão das instruções e sobre a natureza da mente e da realidade.
O busílis é exatamente esse: o nível intelectual não resolve. As emoções e a energia atropelam os pensamentos, e de novo estou aqui angustiado porque meu personagem fictício dentro de um cenário montado não está tendo os resultados que gostaria.
Cansativo.
Mas adivinhe quem está cansado da própria mente?
Exatamente, mais um personagem fictício, o praticante budista que acha que realmente existe como uma identidade e que deveria estar indo para algum lugar mas não está conseguindo.
Seria enlouquecedor, não fosse o caminho para a liberdade.
O budismo precisa ser abandonado, dizem os mestres. Ele é como um barco usado para atravessar o rio do sofrimento, da margem do samsara para a margem do nirvana. Ninguém atravessa um rio, coloca o barco nas costas e sai caminhando estupidamente sob o peso de 80kg de madeira.
Mas esse ponto, o de abandonar o budismo, é um ponto avançado na jornada. Até chegar lá, o barco é necessário.
O Lama Samten diz que, apesar de ser um erro acreditar que nossa identidade realmente está percorrendo uma jornada e vai chegar em algum lugar, não temos outra alternativa senão percorrer uma jornada (mesmo que fictícia) com a nossa identidade. “Não vai ter selfie na linha de chegada”, diz o mestre, porque a identidade precisa ser abandonada em algum ponto. Mas, como só sabemos operar, por enquanto, por meio da identidade, vamos seguindo com ela.
Então me parece que não há outra alternativa senão seguir praticando, ou melhor, intensificar a prática. Mais tempo de meditação e de estudo, menos tempo pra atividades que não conduzem à felicidade (basicamente tudo que fazemos em geral).
E, ao mesmo tempo, menos fixação à identidade, mais desapego, mais deixar rolar.
Complexo e paradoxal? Com certeza.
Mas é tentar isso ou continuar buscando a felicidade onde não vamos encontrar. (Tudo que é impermanente é sofrimento, afinal, de um jeito ou de outro.)
Esse texto era pra ser um desabafo sobre o meu cansaço com a minha própria mente, mas vejam só, acabou virando mais propaganda budista um pouco hipócrita.
Em minha defesa, de alguns cenários mentais consigo me desvencilhar mais facilmente – ou mesmo nem entrar neles – do que há 10 anos.
Quando um praticante budista alcança um nível de domínio da mente avançado e estável isso é chamado de realização. Não é o meu caso, mas ainda assim a gente vai percebendo os benefícios da prática muito nitidamente, mesmo que a prática sejam 10 minutos de meditação por dia, no início.
Quando você alcança realizações, isso significa que está estabilizando a visão correta sobre as coisas e, consequentemente, a paz mental independente das circunstâncias.
Meu conselho, se é que um hipócrita tem condições de dar algum, é: investigue por si mesmo. Nada como observar a própria mente para começar a entender o que está acontecendo (e meditação é essencialmente isso, observar a própria mente).
Enfim, é o que temos para hoje.
Quanto aos meus três fiéis leitores, podem ficar tranquilos(as), o próximo texto vai ser mais animador (amém).
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2 Comments
Kyane
Que texto bonito e humano. Obrigada por compartilhar, Pedro. Leio todos.
Videogame Cósmico
Ahhh, valeu Kyane querida. Obrigado você pelas leituras haha beijo 🙂