Qual o sentido de tentar ser uma boa pessoa?
Essa é uma pergunta interessante, e podemos encontrar respostas satisfatórias com diferentes níveis de profundidade.
Um primeiro bom motivo para tentar ser uma boa pessoa é a regra de ouro, presente em tantas tradições espirituais: não faça aos outros aquilo que você não gostaria que fizessem com você.
É uma questão de justiça básica: se eu não gostaria de ser xingado, por exemplo, é justo que eu evite xingar os outros, que provavelmente também não vão gostar.
Em um nível um pouco mais profundo encontramos as explicações sobre o karma, a cadeia de ações e consequências que tece a vida como a conhecemos.
Praticar más ações gera consequências negativas. Isso é evidente: experimente sair xingando as pessoas aleatoriamente pelas ruas e veja o resultado. Logo, devo evitar praticar más ações para não vivenciar consequências negativas.
Do mesmo modo, ações positivas geram resultados positivos. Experimente ser uma pessoa gentil e solícita e veja como os outros seres respondem. Assim, praticar boas ações é inteligente, pois produz consequências positivas para nós e para os outros.
Agora, podemos aprofundar ainda mais a questão.
Na visão budista, ser uma boa pessoa – ou seja, praticar ações que beneficiem os seres e evitar ações que prejudiquem os seres – é essencial para alcançar a liberação da mente.
Liberar a mente significa eliminar as emoções perturbadoras como apego, raiva, orgulho, inveja, ciúme e ignorância. Imagine viver com uma mente que nunca mais entra em nenhuma dessas emoções que nos deixam malucos, angustiados, que fazem a gente fazer merda o tempo todo. Deve ser ótimo.
A prática da virtude é a base, o fundamento do caminho espiritual que conduz a essa liberação. Sem a virtude, não é possível desenvolver a concentração da mente e nem a sabedoria.
O Buda explica, no Upanisa Sutta, uma cadeia progressiva de qualidades que surgem na mente a partir do fundamento da virtude. Essas qualidades resultam, ao final, na liberação, no nirvana, a paz perfeita.
Uma pessoa que é virtuosa se liberta do arrependimento/remorso. Essa ausência de remorso permite que surja uma satisfação na mente da pessoa. Se houver más ações, o remorso permanece, e então a satisfação não surge.
Com uma conduta virtuosa de mente, fala e corpo, o remorso desaparece e surge a satisfação. Dessa satisfação surge um êxtase na mente. Desse êxtase brota a calma, a tranquilidade. Dessa calma surge a felicidade. A partir dessa felicidade, é possível desenvolver a concentração da mente. Quando há concentração é possível conhecer e ver as coisas como elas realmente são. Vendo as coisas como são de verdade, surge o desencantamento e o desapego. A partir desse desapego, o conhecimento e visão da liberação da mente é possível.
Não é bonito isso?
A virtude, que parece algo mais básico no caminho espiritual, se comparado a práticas aparentemente mais sofisticadas como a meditação ou os mantras, é simplesmente a base de tudo.
Sem virtude não há meditação, mantra ou ensinamento que funcione direito.
E o Buda explica claramente o porquê: más ações geram remorso na mente. Se a mente está perturbada pelo remorso, não há satisfação, nem êxtase, nem calma, nem felicidade, nem concentração, nem visão correta sobre as coisas, nem desapego nem sabedoria e libertação.
Não é fácil manter a virtude em todas as ações de mente (incluindo os pensamentos), todas as falas e tudo que fazemos com o corpo. Por outro lado, como estamos o tempo todo cometendo alguma ação de algum desses três tipos, a possibilidade de praticar a virtude está sempre disponível. O desafio é lembrar da importância e dos benefícios incalculáveis da prática da virtude, e então começar a transformar as nossas ações. Como agimos o tempo todo, temos um campo de prática infinito à nossa disposição.
As 10 ações não virtuosas
Se quisermos ser virutosos, basicamente temos que não provocar sofrimento nos seres todos ao nosso redor. O Buda elencou 10 tipos de ações negativas para nos ajudar nessa tarefa.
3 ações de corpo:
Não matar
Não roubar
Não praticar sexo impróprio
4 ações de fala:
Não agredir os outros com palavras
Não mentir
Não criar discórdia
Não falar inutilmente (tagarelice)
3 ações de mente:
Não gerar fixação à ignorância (ilusão da dualidade)
Não se fixar à carência/aquisitividade/avareza
Não manifestar raiva/aversão
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Não cometer essas ações no nível grosseiro já é difícil; no nível sutil, mais difícil ainda.
O Lama Padma Samten dá o exemplo do não matar. No nível grosseiro, “basta não atirar”. Já no nível sutil, estamos matando o tempo todo, pois quando excluímos alguém, não queremos nem olhar praquela pessoa ou outro ser, estamos como que eliminando-o.
O Lama explica também que roubar, no nível sutil, é qualquer região de apego ou de posse sobre qualquer coisa. Que é basicamente o que a gente faz o tempo todo (kkkkkrying).
O sexo impróprio, no nível sutil, é uma ligação com a felicidade condicionada. Nossos desejos e apegos, que estão quase sempre operando (kkkkkrying II).
E assim por diante: toda ação não virtuosa deve ser evitada no nível grosseiro, mas no nível sutil há outros aspectos que devem ser levados em conta.
Apesar de ser uma tarefa difícil e complexa, só o fato de começar a olhar para isso e de tentar não cometer nenhuma dessas dez ações já é algo maravilhoso. Desse modo estamos deixando de gerar karma negativo e estamos criando marcas mentais favoráveis. Estamos, enfim, começando a praticar a virtude; estamos construindo com carinho a base, o fundamento do nosso caminho de liberação.
Para facilitar, o Lama explica dessa forma: sempre que estivermos seguindo os fluxos de pensamentos, reagindo ao que surge na nossa experiência a partir do nosso karma, não estamos praticando a virtude. Então liberar a mente dessa prisão ao fluxo de pensamentos e às reações automáticas é essencial para conseguirmos praticar a virtude. Isso é a própria prática da virtude, na verdade.
Aqui a meditação é a nossa aliada mais poderosa: só com a estabilidade e a flexibilidade da mente proporcionadas pela meditação temos condições de não seguir os fluxos de pensamentos que inundam a nossa mente e de não reagir automaticamente aos estímulos externos e internos.
Pra terminar, um poeminha.
Comecei a estudar o Visuddhimagga, um calhamaço clássico do budismo theravada. É uma compilação preciosa dos ensinamentos originais do Buda e de comentários feita pelo erudito Buddhaghosa, no século V – o Lama Samten falou que esse livro “é de chorar”, e realmente a profundidade da coisa é emocionante.
No início o livro trata da virtude – depois vai pra concentração e sabedoria, um caminho clássico no estudo budista. Separei um trecho de um poema sobre a maravilhosidade da virtude, e divido com vocês pra fechar o texto de hoje.
Nenhuma brisa que traga chuva,
Nenhum bálsamo de sândalo amarelo,
Nenhum colar, nem joias,
Ou a suave efulgência do luar,
Pode aqui acalmar e suavizar
As febres dos homens neste mundo;
Enquanto esta nobre, esta supremamente fresca,
Virtude bem guardada apaga a chama.
Onde pode ser encontrado o aromaQue se compare ao perfume da virtude,
E que é levado contra o vento
Tão facilmente quanto com ele?
Onde pode ser encontrada outra escada
Que suba, como a virtude, ao céu?
Ou ainda outra porta que dê
Para a Cidade do Nibbāna?
Visuddhimagga – Buddhaghosa
Essa semana postamos um episódio do podcast sobre esse mesmo tema – a virtude como base para o nirvana –, onde trago algumas definições e análises do Visuddhimagga sobre a virtude, que podem ser úteis pra gente transformar a nossa mente. Tá no YouTube e no Spotify.
Escrito por Pedro Renato
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