Perder é melhor que ganhar

INTRODUÇÃO

No último episódio do nosso podcast afirmei, logo no título, que ganhar e perder é a mesma coisa. Nele eu contei sobre uma situação por que passei esses dias, no futebol, que fez despertar em mim uma raiva perturbadora e persistente. Essa raiva me fez refletir com mais cuidado sobre algumas coisas, dentre elas essa questão do ganhar e do perder. (O episódio tá no spotify e no youtube).

Em resumo, ganhar e perder é a mesma coisa porque ambos são sofrimento.

O sofrimento da derrota é evidente. Ninguém acha muito legal perder – seja um emprego, um crush, dinheiro, qualquer coisa. A gente se sente menor, mais fraco, menos inteligente, incapaz.

A vitória, por outro lado, é sedutora – e enganosa. Parece maravilhoso ser promovido no trabalho, conquistar aquela pessoa que a gente tá querendo, ter muito dinheiro. Tanto é assim que estamos sempre correndo atrás dessas coisas.

O problema é que essas conquistas todas têm a mesma característica profunda: são impermanentes. E o que é impermanente é sofrimento, como alertava o Buda aos seus discípulos com alguma frequência.

A felicidade obtida com vitórias passa muito rápido, e logo estamos querendo outra conquista, e outra, e outra, e outra. Não há felicidade real nesse processo constante de querer sempre alguma outra coisa. Há, isso sim, uma angústia contínua, uma insatisfação renitente, uma perturbação mental que não dá trégua.

Mas não percebemos isso, e nem vislumbramos outro jeito de ser feliz senão obtendo vitórias nos diversos âmbitos da vida. Não percebemos que a vitória e a derrota se sucedem; que não há como estabilizar a vitória, parar a impermanência. Não nos damos conta de que o sobe e desce é inevitável. E de que a montanha russa é implacável.

 

PERDER É MELHOR QUE GANHAR

Mantenho, portanto, a afirmação de que, num sentido mais profundo, é tudo a mesma coisa – até porque ambas, vitória e derrota, são construções artificiais, criações da mente baseadas nos cenários que ela própria engendra. Vitória e derrota são ambas criações mentais, e ambas sofrimento.

Contudo, neste presente texto quero ressaltar um aspecto particular dessa aparente dicotomia entre ganhar e perder, um aspecto menos profundo do que a igualdade de ambas, porém um aspecto que pode ser útil: para nós, seres ilusórios que estamos em uma jornada ilusória de liberação da mente, talvez seja melhor perder do que ganhar.

Não que possamos escolher muito; a montanha russa é, afinal, implacável.

No entanto, a vitória é como um estelionatário habilidoso: parece oferecer alguma vantagem, algum ganho inesperado e maravilhoso, para em seguida te apunhalar pelas costas sem dó.

A derrota é diferente. A derrota é sincera. Crua. E nua. Não há enganos, não há promessas de felicidade. A derrota nos apresenta a verdadeira natureza do samsara.

Tudo que surge, se dissolve. Tudo que aumenta, diminui. Todas as vitórias serão sucedidas por derrotas. E é na derrota que temos uma oportunidade de ouro pra perceber que é um erro crasso se apegar ao que é impermanente.

É claro que, se pudermos olhar com atenção para a felicidade que surge quando obtemos uma vitória, e assim perceber o aspecto impermanente dessa felicidade, e então reparar na insatisfatoriedade da experiência, essa é uma ótima prática.

Na derrota, porém, podemos fazer essa observação com mais facilidade. Em geral a lamentamos, pois gostaríamos de estar do outro lado, o lado vencedor.

Se considerarmos que ganhar e perder são, no fundo, ambas sofrimento, e que podemos aproveitar a derrota para aprofundar nossa visão sobre a realidade e avançar no caminho de liberação da mente, quando transcenderemos vitória e derrota e repousaremos na paz perfeita independente das circunstâncias, bem, talvez passemos a considerar que a derrota é melhor do que a vitória.

Quando tiver perdido um emprego, um amor, algo que você considerava valioso, tente se lembrar dessas coisas.

Veja a natureza insatisfatória da derrota e também da vitória. Perceba que no samsara – a existência em que a mente está presa à ilusões como as de vitória e derrota – não há felicidade nenhuma.

E sorria, porque você estará mais próxima da liberação.

 

Por Pedro Renato

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