Mais tempo, mais generosidade

Semana passada, eu fui até a academia, naquele horário dos herdeiros – como tenho visto em alguns memes – por volta das 11h da manhã. Não sou herdeira, mas estou com horários mais flexíveis no trabalho, portanto tentando aproveitar os momentos vazios daquele recinto. Para mim, academia é quase um filme de terror, por isso tento ser pragmática e pensar na minha querida coluna, que já me sustenta há quase 40 anos. Mas isso é assunto para outro texto, pois ali tem sido um excelente lugar de prática!

Saí de casa, e quando estava subindo uma das infinitas ladeiras de Perdizes, um senhor, chamado Marcelo, que deveria ter uns cinquenta e poucos anos, se aproximou e me perguntou a localização de uma rua. Ele estava com uns livros na mão e disse que iria encontrar um colega que lhe daria mais alguns livros, pois aquele estava sendo o seu sustento. Ele vendia cada livro a dez reais, para conseguir pagar por um quartinho de uma pensão. Eu ouvi e perguntei se ele não estaria interessado em pegar mais alguns livros. Ele ficou muito feliz, corremos até a minha casa e escolhi ali na hora, alguns clássicos dos meus tempos eruditos: foi embora Jorge Luis Borges, Mario Vargas Llosa e mais alguns. Na hora, brotou o apego, mas eu não ia ler mesmo, pra quê ficar guardando se eu poderia oferecer uma ajuda? Hoje flerto muito mais com a ideia de poder compartilhar esses livros do que deixá-los com poeira na estante. Quando entreguei os livros, ele abriu um sorriso, agradeceu e eu fui embora, para fazer meus exercícios prazerosos de tríceps. Logicamente, depois da boa ação, vem o ego que lhe diz o quanto você é uma boa pessoa, o quanto você gosta de ajudar, “isso é ser budista”. Porém, na realidade, rapidamente percebi que só fiz aquilo porque eu tinha uma coisa que ninguém tem aqui nessa cidade: TEMPO. 

Este ano, resolvi criar uma relação mais íntima com esse ser, que nos constrói e destrói até morrermos. Eu não fui generosa, eu só tinha tempo. Quando temos mais tempo, todos nós temos uma tendência a ser mais generosos, mais felizes, ficamos mais abertos e disponíveis. É como se essa qualidade brotasse naturalmente, não com esse nome “generosidade”, mas como uma expressão. É só pensar nas férias. Quer dizer, em férias normais que as pessoas descansam de verdade e não aquelas que precisamos bater cartão em 89 pontos turísticos. Esse último tipo, pra mim, não tem diferença nenhuma da dinâmica maluca de trabalho e deveres. Nas férias, deslocamos nossa mente para esse espaço de possibilidades, sentimos mais liberdade, mais alegria, conhecemos pessoas novas, porque a rotina dos deveres foi suspensa. O problema é que essa alegria une as pessoas, a disponibilidade nos coloca num lugar mais amoroso e humano, e isso não gera lucro nenhum para os grandes poderes. A alegria não gera lucro.

Um exemplo simples: quando alguém se machuca na rua, as pessoas que estão ao redor, rapidamente, já se movem para ajudar, ainda que estejam em seus fluxos de pensamento. Porém, como precisamos seguir nossas metas e objetivos daquele dia, precisamos pegar o metrô, precisamos ir tomar cerveja com os amigos, não notamos essa energia pulsante da generosidade e desse estar disponível, voltamos ao caminho individual e nos perdemos dessa natureza básica que é ajudar. Claro, que daí podemos colocar alguns pontos: muitas vezes, nós temos tempo, mas estamos realmente disponíveis e abertos? Volto mais uma vez para o exemplo das férias. Quando viajamos nos envolvemos de fato com aquele novo lugar ou só estamos ali fazendo infinitos check-ins? Consigo parar num bar e olhar ao redor ou ainda estou sendo controlado pelo meu relógio da Apple? 

Na era da comunicação rápida, não conseguimos mais estar presentes ao mundo, pois há sempre uma mensagem de whatsapp que nos fisga a outro lugar, há sempre uma memória de 5 anos atrás, há sempre um texto interessante que você acabou de ler sobre filosofia, nossa mente está sempre jogando cordas para todas as direções, exceto para os simples passos que você dá, naquele justo momento, no chão. Assim, em meio a revivals do passado e novos planejamentos futuros, a ansiedade cresce cada dia mais por entre os poros da pele. Essa tem sido nossa condição. A disponibilidade e a generosidade parecem estar num lugar fora das nossas próprias vidas ou limitadas apenas ao círculo de relações das nossas famílias e trabalho. Ou também parecem estar num lugar inatingível de futuro.  Motivo: falta de tempo. Será mesmo? Fica aqui a pergunta para cada um refletir.

Não há espaço para que os desdobramentos da vida possam seguir seu fluxo de maneira natural e aberta, pois estamos ali, indo em direção às coisas “importantes” e “seguras”. A gente esquece que o ar está entrando e saindo dos pulmões, e que esse é o maior ato de generosidade que a vida nos oferece. Nada melhor do que encerrar o texto com uma fala sobre a generosidade, de uma mestra muito especial, a venerável Jetsunma Tenzin Palmo:

As coisas materiais são boas para começar, mas também podemos doar outras coisas, assim como o nosso tempo, a nossa simpatia, a nossa presença e um coração destemido quando os outros precisam de nós.

Boas práticas!!

 

Por Mari Molinari

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