Entre traças e poeira podemos encontrar espaço

Mudança é uma coisa muito maluca. Abrimos o baú das histórias. Retiramos os objetos que estavam no fundo das gavetas e acionamos um modo corporal que reage a cada coisinha encontrada. Deixamos eles ali, guardados nos cantos mais escuros do armário por anos, sem nunca pegá-los, às vezes 10, 20 anos e quando eles se levantam, em meio à traças e poeira, precisamos lidar com aquilo. Surge um movimento interno potente para que tudo aquilo seja lançado pelos ares, afinal, estamos de mudança! Porém, há um outro, mais forte e muito mais potente, aquele que conhecemos há incontáveis vidas, que nos puxa para os portões das memórias, histórias e vínculos. Ele surge pelas fotos, pelas cartas, por um pedaço de fita de cetim que ganhamos do nosso tio em 1987. Doar ou não? Jogar fora ou não? Não sabemos o que fazer. Entramos naquele lugar quentinho – no meu caso, na década de 80 – e nos transportamos para outras vidas. As vidas da infância, da adolescência…dos “bons tempos”.

Mas todo esse apego exposto, também se abre como uma ferida aberta, por sentirmos que o passado ainda mexe, ainda dói. Sentimos uma exaustão, porque ficamos numa micro luta alternando entre “meu deus, não preciso de tanta coisa assim”, “meu deus, isso aqui era da minha avó”, “pra quê tantas roupas?”, “mas eu nem uso mais essa molheira de prata”. Olhamos para todas as caixas espalhadas pela sala, pelos corredores e nos deparamos com a nossa dificuldade intrínseca em deixar as coisas irem, em soltar. A saudade surge gritando silenciosa dentro de nós.

Por isso as mudanças são tão complexas. Nossa casa externa sacode, nossa casa interna também. Nossos hábitos são interrompidos e queremos que tudo seja guardado novamente, queremos que as histórias sejam novamente armazenadas em seus cantinhos, porque o passado, a nostalgia, a vontade de ver de novo aquele familiar que morreu, é muito intensa. Mas onde moram essas histórias? Nas coisas ou na mente? Temos apego aos mundos que construímos nos mil e um pedaços de nossas vidas e os objetos nos transportam imediatamente para uma sensação de segurança, de amor, afeto. Queremos guardar esses mundos de alguma forma. É muito bom rever, relembrar e visitar nossos antepassados e nossos inúmeros “eus” que habitam nosso corpo enquanto fazemos nossa passagem nesta terra. Lembro uma vez de um sonho que tive. Entrava numa casa, e uma das paredes estava repleta de fotos minhas, em porta-retratos circulares. Fotos de infância e adolescência. Neste dia, acordei mexida, sem nem ao menos ter realmente tocado em uma dessas fotos. Os sentimentos vieram pela insubstancialidade dos sonhos. Incrível.

Ao mesmo tempo, tirar os objetos do chão e levá-los para um novo lugar, nos causa uma grande regeneração. Talvez uma analogia com a borboleta seja meio clichê, mas ela é válida. As asas só surgem quando saímos do casulo, não tem jeito. Estamos aqui, ouvindo ensinamentos, lendo, estudando, para conseguirmos perceber que a vida é completa a cada segundo.

A meditação é um dos melhores meios para cultivar esse contentamento momento a momento. Poderíamos ter essa visão sempre, mas precisamos que a vida nos ofereça uma bela sacudida, de tempos em tempos, para que nosso olhar também mude. Quando reencontramos o passado, o eu do presente pode transformar tudo e a vida inteira ganha um outro significado. Liberamos pessoas, assuntos, angústias e sentimentos apertados.

Penso que sim, vale a pena guardar, pois no futuro isso pode nos ajudar a pensar na riqueza de nossa vida, principalmente se tivermos algum problema com a nossa memória. Há um livro infantil que se chama “Guilherme Augusto Araújo Fernandes” de Mem Fox e Julie Vivas. Neste livro, o personagem Guilherme, que mora ao lado de um asilo, começa a ajudar os idosos que perderam suas memórias. Pergunta a eles, o que eles acham que é uma memória, e a partir dessas respostas, reúne objetos de sua casa que poderiam trazer algum tipo de conexão com as histórias. Os velhinhos existem de novo, ganham vida de novo. O livro é lindo.

Por outro lado, também acho necessário se livrar daquilo que já não serve e passar pra frente, ainda que tenha um valor sentimental enorme. Quando soltamos algo do passado, que seja um objeto, aquilo que a ele estava vinculado, também se solta de alguma forma. Aproveitar essas transições da vida, vale muito a pena, ainda que seja difícil. Esses são os melhores momentos para percebermos que a “nossa casa” não está nas paredes, nem nas fotos, nem nos objetos. Nossa casa está sempre dentro. Além disso, outras pessoas podem usufruir de um jogo de pratos antigo, de um casaco quente que era da sua avó ou até mesmo daquele brinquedo da sua infância. É bom permitir que as coisas girem.

Talvez um pouco de casulo, um pouco de asas. Um pouco de pó embaixo de caixas, mas bastante espaço vazio também.

Escrito por Mari Molinari

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