A vida é assim mesmo ou o nirvana existe?
Esse é o tom de muitas reações das pessoas quando eu falo sobre os sofrimentos do samsara, sobre como a gente não encontra nada realmente satisfatório, já que tudo é impermanente: “Mas a vida não é assim mesmo?”
De fato, parece um pouco cruel e amargo e baixo astral criticar as felicidades que a gente conhece. Esses dias escrevi aqui sobre a minha paixão pelo rock’n’roll do AC/DC e sobre como eu deveria abandonar (mentalmente) a minha fixação. Quem me conhece estranhou; parece absurdo abandonar a nossa fixação às coisas que a gente mais gosta.
E é, realmente, absurdo, se considerarmos que a vida é só isso que a gente conhece, essas felicidades passageiras seguidas de tristezas que depois dão lugar a outras felicidade passageiras e assim sucessivamente.
Se for isso mesmo, bem, talvez seja melhor mesmo focar em curtir as coisas passageiras que a gente gosta.
Mas tudo indica que a vida não é só isso.
A FELICIDADE VERDADEIRA
Segundo o Buda e incontáveis mestres e praticantes budistas (e não budistas também) existe um tipo de felicidade descomunalmente superior à felicidade que conhecemos.
Sim, amigas e amigos, superior à música mais sublime que faz arrepiar os pelos do nosso corpo, superior à se apaixonar ou gozar ou andar de montanha russa ou [insira aqui sua felicidade passageira preferida].
Essa felicidade independe de causas; ela brota diretamente da mente da pessoa. Por ser independente de causas, essa felicidade não é passageira. Ela está sempre aqui, disponível, inclusive depois que o corpo envelhece, adoece e morre – na visão budista a mente continua operando após a morte do corpo, e se a pessoa alcançou a felicidade verdadeira (o nirvana), sua mente continuará no nirvana por toda a eternidade.
Mas isso parece uma abstração, não parece? Uma crença. Um mito. Uma fantasia. Ou, no mínimo, algo tão difícil de ser alcançado que não vale a pena nem tentar.
SOBRE O NIRVANA SER MUITO DIFÍCIL
Difícil é, de fato, mas não é impossível – e isso muda tudo.
Há incontáveis budas andando pelo cosmos; não foi só um ser específico que nasceu há 2.600 anos na Índia que chegou lá.
Inclusive nos próprios ensinamentos budistas são contadas muitas histórias de seres que encontraram o Buda e seus ensinamentos e logo alcançaram a iluminação, a felicidade definitiva.
Há mestres budistas contemporâneos que são considerados completamente iluminados também.
Seres que andam por este mesmo planeta que nós, se alimentam, suam, sentem dor e dão risada. E que, mais importante, tem o mesmo tipo de mente que nós e todos os seres.
Todos temos a natureza búdica, a mente livre que cria as realidades e é consciente de tudo.
Melhor a gente olhar a partir desse ponto – temos a mesma mente que os budas, precisamos só perceber isso – do que se fixar na dificuldade. A dificuldade para alcançar o nirvana sempre corresponderá a uma identidade ilusória fixada na própria existência.
Mas a identidade ilusória é… ilusória! Essa jornada toda na verdade é como um sonho ou um filme. Uma espécie de brincadeira da natureza búdica, que se escondeu de si mesma e agora brinca de se encontrar novamente.
O jeito que a gente vê determina a nossa experiência. “Se você achar que é difícil, será difícil”, me disse um sábio andarilho indiano quando eu perguntei se era difícil alcançar a iluminação morando em uma cidade grande.
Nunca esqueci disso: se eu achar que será difícil, será difícil. Melhor ampliar a visão e perceber que a natureza básica da mente não se altera e é plena de paz e felicidade o tempo todo, independentemente de causas. O caminho espiritual nada mais é do que soltar as fixações, assoprar as poeiras da confusão e, então, perceber a natureza prístina e luminosa da mente que estava aqui o tempo todo.
SOBRE O NIRVANA SER UMA FANTASIA
Esse tópico eu acho ainda mais desafiador que o anterior. Nossa cultura é extremamente materialista: a ciência substituiu a religião como a portadora das verdades universais, e então nós só acreditamos no que os nossos sentidos podem perceber, no máximo no que os sentidos ampliados por aparelhos científicos descrevem.
E aí passamos a fritar loucamente sobre as melhores formas de viver a vida dentro dessa ideia de que somos apenas o resultado de processos evolutivos, químicos, biológicos, e entramos em guerra para decidir se devemos restringir nossos desejos, formar família e sermos cidadãos de bem, ou se devemos correr livres, leves e soltos atrás dos nossos desejos, ou se devemos encontrar o nosso suposto verdadeiro propósito, ou os nossos verdadeiros desejos, ou se deveríamos simplesmente desistir e assistir série e futebol e esperar a morte chegar.
Nessa briga entre moralistas, filósofos, analistas, esquisoanalistas e por aí vai, sinto informar que tá todo mundo errado.
Posso parecer um pouco pretensioso ao afirmar isso, eu sei, mas na verdade o pensamento ocidental é que é bastante presunçoso ao simplesmente desconsiderar as descobertas profundas dos contemplativos indianos, tibetanos, chineses etc. sobre a mente e a felicidade.
O nirvana budista e a moksha do yoga, que são as palavras para definir, em termos gerais e grosseiros, a liberação completa da mente de um ser de toda confusão e sofrimento, são elementos centrais na cultura de muitos países e, portanto, na realidade de inumeráveis pessoas. (E não, não são a mesma coisa que o céu cristão ou o Nosso Lar espírita, muito longe disso.)
E, mais importante, são estados investigáveis: todo mundo que já fez uma boa prática de yoga ou meditação sabe que existem alguns níveis de paz e felicidade que podem ser experimentados por meio do desapego, do soltar, sem depender de nenhuma experiência específica.
Não é a meditação que dá a sensação de paz: é a capacidade de soltar das fixações que nos permite perceber a paz que já está aqui, dentro da mente. Isso fica cada vez mais evidente à medida que você pratica meditação com alguma regularidade.
O que os yogues afirmam é que esse estado é permanente para quem se dedica à prática espiritual até alcançar a sua culminância. E, mais do que afirmar, eles ensinam o caminho.
Por isso o pensamento ocidental sobre a existência e a felicidade está fadado ao erro: ao não considerar a existência do nirvana, a análise sobre a vida e a felicidade fica absolutamente limitada.
Toda a discussão sobre a felicidade na filosofia ocidental ocorre dentro do âmbito do samsara, a existência cíclica que só conhece as felicidades transitórias. Essas felicidades, na visão budista, sequer são felicidade; como contêm em si a semente do sofrimento, já que são impermanentes, no fundo são sofrimento também.
Então nos nossos papos existenciais em geral estamos numa briga tola e inútil para ver quem descobre o melhor tipo de felicidade impermanente. Deveríamos formar uma família ou usar droga e fazer sexo ou nos dedicar à vida intelectual ou à vida fitness ou às artes ou…
No fim é tudo a mesma coisa. É tudo impermanente, portanto insatisfatório por natureza. Sofrimento, enfim.
Não faz sentido a gente ouvir um pouco a numerosíssima galera que fala que existe uma felicidade permanente? Essa é uma hipótese tão maravilhosa que, me parece, deve ser investigada com a maior profundidade e atenção que pudermos empregar.
O CAMINHO PARA O NIRVANA
Nesse ponto do texto eu falaria sobre os estágios de meditação ensinados pelos budistas, os quais culminam no nirvana ou iluminação.
Mas o texto já se estendeu um pouco, então fica para o próximo.
Em breve sai a parte dois; bora investigar o nirvana.
Por Pedro Renato
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