A teia do karma – uma homenagem ao mestre Veríssimo
Eu vi a notícia dando conta da morte do Luis Fernando Veríssimo assim que acordei, ontem, sábado, 30 de agosto; porém, atrasado pra dar uma aula na Ekadanta, nem processei direito.
Depois da aula fui almoçar com a Dafne num restaurante por quilo aqui do bairro. Ela foi embora antes de mim, e enquanto eu finalizava meu arroz com feijão e macarrão e vegetais começou a passar uma reportagem na televisão do restaurante sobre a morte do, na minha desimportante e desinformada opinião, melhor cronista brasileiro da história.
O som estava baixo, mas dava pra pescar algumas coisas. Fui me dando conta de que um dos meus ídolos literários, o cara cujas colunas no jornal eu lia ávida e ansiosamente desde moleque, cujas coletâneas de crônicas eu li e reli e re-reli e esses dias comprei no sebo de um amigo pra reler mais uma vez, cujos quadrinhos de traços toscos contêm sacadas absolutamente geniais, o escritor que mais me fez tomar gosto pela leitura e pela escrita, tinha ido embora.
E então, em meio aos barulhos dos talheres e das caras distraídas das pessoas almoçando, chorei. Me levantei pra chegar mais perto da televisão e fiquei ali parado, tentando ouvir o que a matéria falava, preocupado em tentar não atrapalhar o fluxo dos clientes e das garçonetes pelo espaço apertado e me segurando pra não soluçar ridiculamente.
Corta pra hoje, o dia seguinte à morte do homem, quando decidi tentar homenageá-lo com esse texto. O que eu poderia falar? Sobre sua sagacidade, seu humor cortante incomparável, seu estilo, sua visão social aguçada, a profundidade do seu pensamento imiscuída em meio a piadas e cenas aparentemente banais do cotidiano? Sim, poderia falar de tudo isso, e acabei de fazê-lo.
Mas aí pensei em como é incrível a teia kármica da vida, e acho que quero falar mais sobre esse aspecto das coisas (todas). O LFV não faz a menor ideia de quem eu seja – duvido que ele se lembre do jovem que o cumprimentou, abestalhado, na entrada do teatro São Pedro em Porto Alegre uns 15 anos atrás, e lhe disse que era seu fã – mas suas ações afetaram decisivamente a minha vida (e a de incontáveis outras pessoas).
O Veríssimo me ensinou sobre política, escrita e humor durante longos anos, e pude usar esses aprendizados na primeira vez na vida em que senti que estava fazendo algo útil pra sociedade, quando tive uma coluna política em um blog de esquerda.
Seus textos fazem crescer em mim um interesse pelos aspectos profundos da existência e pelas grandes questões, interesse que me levou e continua me levando a conhecer coisas fantásticas e instigantes e libertadoras. E o mais incrível: ao mesmo tempo, suas palavras sempre me ajudam a ver as coisas com alguma leveza e a achar graça dessa confusão aparentemente sem sentido que chamamos de vida. O Veríssimo era um mestre da liberação pelo riso!

Eu e, repito, incontáveis outros aprendemos demais com ele. E ele não faz a menor ideia disso!
Quer dizer, em um nível intelectual ele com certeza sabia do seu impacto sobre gerações de leitores, mas isso eram apenas pensamentos perambulando na cabeça dele, ele não sabe os nomes das pessoas que ele atingiu, as histórias, o tamanho e a qualidade da sua influência… nada!
O LFV estava lá simplesmente vivendo a sua vida, escrevendo, tocando saxofone (que ele achava mais divertido que escrever, inclusive, porém adorava a ‘sensação de ter escrito’). E suas ações de mente, fala e corpo foram se derramando sobre a teia kármica da vida e afetando gente por todo lado.
Mas esse poder não é exclusividade do LFV. Todos temos esse poder de afetar a vida de incontáveis seres com nossas ações. Aqui não importa o número de seres que afetamos; o ponto é que seres são impactados com nossas ações de mente, fala e corpo, inapelavelmente.
Uma amiga uma vez me falou que uma frase que eu tinha dito pra ela anos antes ajudou-a com alguns dilemas pelos quais passou. Eu nem lembrava da frase! Um cara uma vez recolheu um pacote de salgadinhos que tava jogado na calçada e jogou na lixeira, bem à minha frente, e desde então eu faço o mesmo quando vejo algum lixo pelo chão. O cara não me conhece; ele sequer me viu caminhando atrás dele. Porém, sua ação benéfica me inspirou, e agora estou contando isso neste texto e a ação dele pode inspirar ainda mais pessoas.
Percebem o efeito dominó?
Cada ação nossa é realmente especial e com certeza impactante para o multiverso e os seres que o habitam.
Tem um filme que retrata magistralmente isso, com o cara que faz o Dwight no The Office (o Rainn Wilson), chamado Super. Recomendo.

E recomendo, é claro, a leitura das crônicas do Luis Fernando Veríssimo. Se você não tem nenhum livro dele e não quer/pode gastar nesse momento, joga no google “crônicas Luis Fernando Veríssimo” e aproveite o lado bom da internet.
Escrevo esse texto, como já mencionado, no dia seguinte à morte do LFV. Para fins de inspiração, peguei, antes de começar a escrever, um livro de crônicas dele e li uma, exatamente a próxima, do ponto onde tinha parado a leitura há alguns meses (estou no início ainda, é um calhamaço de 700 páginas, “Luis Fernando Veríssimo Antológico”). Era uma crônica sobre a morte – é claro – que eu reproduzo abaixo. Delicie-se também com a visão debochada, resignada e, portanto, libertadora de Veríssimo sobre a vida, a morte e a condição humana:
Memórias
Estavam na casa de campo, ele e a mulher. Iam todos os fins de semana. Era uma casa grande, rústica, copiada de revista americana, e afastada de tudo. Não tinha telefone. O telefone mais próximo ficava a sete quilômetros. O vizinho mais próximo ficava a cinco. Eles estavam sozinhos. A mulher só ia para acompanhá-lo. Não gostava da casa de campo. Tinha de cozinhar com lenha enquanto ele ficava mexendo no jardim, cortando a grama, capinando, plantando. Foi da janela da cozinha que ela viu ele ficar subitamente teso e largar a enxada, como se a enxada tivesse lhe dado um choque. Ela correu para a porta da cozinha e gritou:
— São as dores?Ele só pôde fazer “sim” com a cabeça. Ela foi buscá-lo. Trouxe-o para dentro de casa, amparando-o a cada penoso passo. Ele suava muito. Cheirava à terra. Ela perguntou:
— O remédio está com você?
Ele disse que não. Foi mais um grunhido. Subiram, a custo, os dois degraus da porta da cozinha. Ele não quis ir para a cama. Quis ficar na cadeira de vime da cozinha. Ia passar.
— Onde é que está o remédio?
Ele fez um gesto que queria dizer “por aí”. Ela insistiu, já em pânico:
— Onde foi que você botou o remédio?
Com a mesma mão ele pediu tempo para pensar. Onde tinha posto o remédio? Ela não esperou. Foi revistar o casaco dele, pendurado no armário, perto da entrada. Não encontrou o remédio. Correu para o quarto deles. Ele tinha atirado tudo que trouxera da cidade — livros, revistas, alguns papéis do escritório — em cima da cama. Procurou nos bolsos da calça que ele também jogara na cama. O remédio não estava ali. Ela voltou para a cozinha.— Onde é que você pôs o remédio?
Ele tentava reconstruir, mentalmente, tudo o que fizera ao chegar à casa no dia anterior. Desci do carro. Abri a porta da frente. Fui direto para o nosso quarto. Atirei os livros, as revistas e os papéis em cima da cama. Gisela estava embaixo dos lençóis, nua, só a sua cara sorridente para fora. Mas o que é isso? Não tinha ninguém embaixo dos lençóis. Ele fora ajudar a mulher a abrir as janelas. Depois… Depois o quê? Voltara para o carro e pegara os pacotes de comida. Levara para a cozinha. Saíra pela porta da cozinha e fora ligar a chave da luz que ficava do lado de fora. Vira o seu pai no meio do gramado, de costas para ele, chorando. Claro que não vira. Seu pai morrera antes de eles construírem a casa.
— Tente se lembrar! — gritou a mulher, assustada com a dor que via no seu rosto.
— Estou tentando. Olhe no carro.
Ela foi olhar no carro. Procurou no porta-luvas e no chão. Enfiou a mão dentro dos bancos. Nada. Voltou para dentro da casa e começou a abrir gavetas. Gritou para a cozinha:
— Você tem certeza que trouxe?
— Tenho. Tenho! — gritou ele, impaciente porque ela interrompera a sequência do seu pensamento. Troquei de roupa. Atirei as calças da cidade em cima da cama. — Procure nas minhas calças, no quarto!— Já procurei! — gritou ela.
A dor estava aumentando. Ele precisava organizar seu pensamento. Biguá, Bria e Jaime. O quadrado da hipotenusa. Calma, calma. Botei minha roupa de jardineiro. O remédio devia estar junto com as coisas de banho que a mulher sempre trazia numa sacola de plástico. Bauer, Eli e Bigode.
— A sua sacola de plástico.
— Eu nunca trago o remédio na sacola. Você é que traz com você.
— Deve ter caído no chão.
— A dor não está passando?
— Não.
Ela correu para o quarto e começou a engatinhar. O remédio devia ter caído do bolso quando ele tirara as calças. Ela procurou embaixo da cama. Nos cantos. Atrás do armário. Voltou para a cozinha. Estava com a cabeça atirada para trás.
— Não melhorou?
— Mais ou menos…
Mas não tinha melhorado.
— Pense!Ele tentou limpar a cabeça. Dar uma varrida no cérebro. Moldá-lo. Comandá-lo. Fazê-lo pontiagudo e preciso. Campidoglio. Mas que Campidoglio? O remédio. O remédio. O cérebro era como o pau, impossível de controlar. Gisela, Gisela. Emplastro de Vick Vaporub. As caixas de pó da sua mãe. O Vingador no rádio. Buscapé. Quem é que usa as cuecas do Fiuza? Era como se ele quisesse enxergar alguma coisa e fosse atrapalhado por nuvens, teias, fios de açúcar, o cheiro da loção do seu pai, fios de açúcar, o parque, seu pai no meio do gramado, de costas para ele, tentando segurar o choro e não conseguindo, pipoca, puxa-puxa, a volta para casa no carro, de noite, no colo de quem, de quem? O cheiro de madressilva.
— Eu vou até a cidade comprar o remédio.
— Não deve ter…
— Eu vou até lá. Como é o nome do remédio?
Oswaldo Baliza. Não, esse era o goleiro do Botafogo. Tanta coisa inútil. Um bom martíni deve ser mexido, nunca sacudido. “Laura” era a Gene Tierney. O nome do remédio. Concentre-se. Caixinha branca, tarja vermelha. Começa com “T”. Thuran Bey. Não. “Triste é cantar na solidão…” Talmud. Trilateral. Tesão. (Gisela, Gisela!) Bauer, Ruy, não Eli, e, e…
— Noronha!
— O quê?
— Não. Começa com “t”…A mulher disse que não importava. Na farmácia deviam saber. Ou então ela procuraria um remédio. Onde é que estavam as chaves do carro?
— Deixe eu pensar…
— Ai meu Deus…
Ele procurou as chaves do carro dentro do cérebro. Dentro de uma caixa de pó, redonda, da sua mãe. “Seu pai se suicidou…” Fios de açúcar. Biguá, Bria e Jaime. Procurou dentro de uma caixa de charutos do avô que tinha transformado em projetor. Onde estão as chaves do carro? Dentro das latas com sua coleção de tampinhas de garrafa não estavam. Atrás dos livros na prateleira do pai, onde ele um dia descobrira um livro pornográfico, também não. A mulher agora segurava o seu rosto entre as mãos.— Pense! As chaves do carro!
Era preciso se organizar. O nome dos seus filhos. Fernando e Felipe. O nome dos netos. Deixa ver. 31-33… Não, esse era o número do telefone da Gisela. 4-16-7. A combinação do cofre. 0086… Não, seu CPF não interessava. As chaves do carro! Ásia, África, Europa, América e Oceania. As treze capitanias hereditárias. Amapola, lindíssima Amapola. Aquela vez em Roma, no Campidoglio, em que… Não era isso! As chaves do carro. O remédio. O nome do remédio. Estava com o cérebro entulhado. As coisas que a gente acumula! Miltinho e Helena de Lima. As armas e os barões. O Gordo e o Magro. Os negócios. Os negócios mataram seu pai. O sapo que um dia entrara na cozinha da casa de campo. Um sapo marrom, latejante. C’est si bon. As ruas de Copacabana, Prado Júnior, Hilário de Gouveia. Ou Ronald de Carvalho? Orca, a baleia assassina. Homem Bala. Namor, o Príncipe Submarino. Começavam a brotar caras. Na busca das chaves tinha perfurado um cano de caras. Colegas da escola. Professores. O tenente Bandeira. O cérebro alagado de caras. Delírio. Agora mesmo é que não ia encontrar mais nada. Gisela. O tio Tonico! Einstein. Rita Pavone. Ouviram do Ipiranga. Tentaste flertar alguém. Tudo menos as chaves!
A mulher procurava, de novo, nas gavetas. Despejou o conteúdo da sua bolsa no meio da sala. Foi ao banheiro e despejou no chão o que tinha na sacola de plástico. Voltou para a cozinha.
— Passou a dor?
— Está passando.
Não estava. Estava piorando. Ela disse que iria a pé até a casa mais próxima, buscar ajuda. Ele gritou:
— Não!Não queria ficar sozinho com as suas memórias. Seu cérebro estava tentando matá-lo. Era isso. Estava sendo assassinado por banalidades. Se lembrara de coisas de quando tinha 4 anos de idade e não se lembrava onde pusera as chaves do carro. Ou o remédio. Era tudo química, ele sabia. Enzimas, células, combinações celulares. Nada pessoal. Quanto mais se pensava sobre pensar mais havia sobre o que se pensar. O coração era o que mantinha vivo o mecanismo que mantinha o coração vivo. A morte é a última coisa que eu quero que me aconteça. Alguma coisa no seu cérebro não queria que ele encontrasse o remédio. Ele procurava as chaves do carro e a salvação e encontrava o gosto da papinha de frutas que comia quando ainda não tinha dentes. Era uma conspiração. Veja ilustre passageiro. Todas as coisas sem importância armazenadas em 50 anos de vida agora entulhavam os corredores. Sua ânsia de viver queria matá-lo. Emergência! Emergência! Desobstruam todos os acessos. Isto não, repito, NÃO é um treino. O remédio. As chaves. Sua mulher. Como era mesmo o nome dela? Os Zugspitzartisten. Por que diabo estava se lembrando dos Zugspitzartisten? Onde estava sua mulher?
Ela saíra. Devia estar correndo pela estrada. Ela que tinha horror de barro e de mato. Ele ia morrer. Sério, agora. Era uma armadilha. Eu mesmo me atraí para aqui, comprei esta casa solitária com meu próprio dinheiro e esqueci onde botei os remédios e as chaves do carro. Devia ter desconfiado de mim mesmo quando fiz questão de não instalar telefone. Seu pai dera um tiro na memória. Quem se mata, mata a sua mortalidade. O suicídio e a masturbação são manifestações clandestinas de autogratificação que o sistema não previa. Como as hortas privadas nos regimes comunistas. Biguá, Bria e Jaime. Eli, Danilo e Bigode. O homem é o único animal que se mata. O homem é o único animal que coleciona figurinha de bala. O homem é o único animal que faz caretas para a sua própria câmera. O homem é o único animal que lambe os pés de Gisela. A dor aumenta. Eu vou morrer. Meu cérebro, purgado pelo terror, transforma-se. Torna-se grave e agudo. Está pronto para a última revelação. Sério, agora. O que nós não podemos conceber é não ter a memória da nossa morte. É não poder pensar nela depois. Não poder relembrar com os amigos no velório. Passamos a vida inteira nos preparando para a nossa morte e quando ela vem não podemos assistir. A morte não tem depois. Isto não é um treino. Meu pai se matou por causa dos negócios. Paguei suas dívidas, reergui os negócios, tenho nome e casa de campo. Mas ele deve, um dia, ter procurado alguma coisa no fundo do cérebro e dado com aquele horror, como um sapo latejando. O homem é o único animal que soluça escondido. Se matou porque era mortal. Porque o seu filho era mortal.
Sério, agora. Chega de banalidades. Já que eu vou morrer, que venha a última revelação. No fim até os tolos são trágicos. Até o caramujo, na hora da sua morte, participa do grande drama da existência. O homem enche a cabeça de bobagens porque não suportaria a única ideia que traz no fundo, a de que vai acabar. O cérebro é um tubarão. Não pode parar senão vai para o fundo. Mas agora eu quero. Pousar no fundo. Atravessei camadas de fios de açúcar para chegar ao meu centro. Chega de desconversa. Não sinto mais dor. Talvez já tenha morrido. Estou no fundo. Sim, sim. É uma clareira numa floresta escura. Chegou a hora. Vejo cipós reluzentes. Muita umidade. Bem no meio da clareira, no centro do centro, há uma pedra grande. Maior do que eu, seja lá quem eu for. A pedra é escura. Há alguma coisa escrita em letras brancas. Enfim, a explicação de tudo. Me aproximo, como se boiasse. No fim todo homem tem direito, pelo menos, à solenidade. Voltei ao meu começo. A primeira pedra. A revelação. Já posso ler as letras brancas. Sério, agora.
Na pedra está escrito: “Casas Pernambucanas”.
Depois ficou tudo escuro.
Escrito por Pedro Renato
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