A liberação pelo riso

Pedro Breier

Nada é tão criativo quanto o humor, portanto se arte é criatividade então o humor é arte, e arte superior. Tragédia é destino, as coisas como elas fatalmente são. O humor é a surpresa, e portanto a insubmissão à tragédia. Alguém disse que todo o humorista é um utopista desencantado. Eu acho que todo humorista é um utopista que não desiste. Está certo, no fim morre todo mundo, mas esta é a maior piada de todas. Mesmo que seja de péssimo gosto.

Luis Fernando Veríssimo

Acabei agora de assistir a um documentário sobre o Luis Fernando Veríssimo (tá na Amazon Prime) e, como um bom afccionado pelo homem, pausei o vídeo quantas vezes foram necessárias pra ler os textos, cartoons e entrevistas que apareciam na tela.

No meio de uma entrevista, no finalzinho, apareceu a pérola aí de cima, que remete diretamente à ideia da liberação pelo riso. Comentei sobre isso de passagem no texto que escrevi quando o Veríssimo morreu, e depois de chorar como uma criança no final do documentário, e em seguida gargalhar lendo mais uma de suas crônicas hilárias, bem, só me resta aprofundar um pouco essa ideia.

O que seria a liberação pelo riso?

Quem a propõe é o Lama Padma Samten, mestre budista brasileiro – e gaúcho como o Veríssimo, o que pra mim é mais motivo de orgulho pro estado do que o pôr do sol do Guaíba, mas é melhor não dar mais motivos pra gaúchos (como eu) se sentirem orgulhosos.

O ponto é o seguinte: toda a nossa confusão, nossos medos, nossas ansiedades, angústias, dores, todo o nosso sofrimento, enfim, surge de cenários mentais construídos pela mente.

Sem os referenciais mentais de “eu”, “outro”, “coisas que eu quero” e “coisas que eu não quero”, todo o nosso sofrimento desmorona como um sorvete sob o sol quente.

Diante dessa situação, uma abordagem comum, tanto no budismo como em outras tradições, é considerar que a realidade aparente é uma ilusão, é falsa. O que é verdade, de alguma forma, mas ainda não é o ponto da liberação.

Segundo o Lama Samten, o aspecto ilusório não é o aspecto mais profundo da realidade. O aspecto mais profundo é o aspecto mágico.

As coisas, apesar de serem ilusórias, meras aparências que surgem e desaparecem na mente dos seres, ainda assim surgem e desaparecem. São aparições mágicas, truques da mente.

Por isso o Lama propõe a liberação pelo riso. Em vez de rejeitar as aparências (tudo que surge na nossa mente, seja internamente ou externamente), sorrimos para elas. Percebemos que são construções mentais, e então apreciamos a criatividade infinita e poderosa da nossa própria mente.

Seja o cenário construído brilhante ou catastrófico, o ponto da liberação é achar graça e abrir um sorriso. “Tô apaixonado e tô sendo correspondido.” Uau, que criatividade mental pra construir mais um cenário desses! “Tô apaixonado e tomei um pé na bunda!” Uau, do mesmo jeito!

“Tragédia é destino, as coisas como elas fatalmente são” é o que o Veríssimo falou sobre a realidade, e essa descrição é fartamente encontrada nos textos budistas. O samsara é um lugar horroroso – o reino humano, onde estamos agora, tem mazelas brutais, mas existem reinos estrambolicamente piores, como o dos infernos e dos fantasmas famintos.

Ver os sofrimentos do samsara com clareza é importante, mas não é o ponto da liberação. Porque o samsara nada mais é do que uma criação mágica que surge dentro da mente dos seres. Os seres se veem erroneamente como individualidades separadas do resto da existência, e a partir daí surge a novela cósmica de quadrilhões de anos elevados ao infinito.

Temos que admitir que isso é engraçado pra cacete.

Todos os nossos grandes problemas são simplesmente construções mentais. E a morte é, de fato, a maior piada de todas – tudo isso pra virar comida de verme?

O fato da morte, no fundo, sequer existir, é a punchline cósmica suprema.

Melhor dar risada disso tudo. O humor é a insubmissão à tragédia.

Pra terminar, divido com vocês a crônica do Veríssimo que me fez gargalhar, logo após chorar copiosamente ao final do documentário. Uma crônica supostamente aleatória que, como não poderia deixar de ser, tem tudo a ver com o tema sobre o qual eu iria escrever em seguida. Talvez o roteirista da vida seja um cronista engraçadinho, um LFV cósmico.

Ri, Gervásio

O produtor sacudiu a cabeça.
— Não estou gostando das risadas…
— As risadas?
O assistente esperava tudo menos aquilo. Esperava que o produtor criticasse os quadros do show, o texto, as interpretações, a qualidade da gravação — mas as risadas?
— É. As risadas. Não sei. Estão diferentes.
— Mas é a mesma claque de sempre.
— Tem certeza de que não mudou ninguém?
O assistente foi se informar com o encarregado da claque. Era a mesma de sempre. Gente aposentada atrás de um dinheiro extra.
Alguns eram veteranos de rádio. Outros tinham começado com a televisão. Ganhavam pouco mas se divertiam.
— Só quem saiu foi o Gervásio.
— E o Gervásio fazia alguma diferença?
— Bem. Tinha uma risada boa…
— Tinha uma grande risada — opinou Amelita, a mais antiga da claque. — Uma das melhores que já ouviu. Amelita, segundo a lenda, nascera na fileira de trás de um auditório de rádio. Já nascera aplaudindo. Era a alma da claque. E agora estava dizendo que Gervásio era dos grandes. — Ele ria por baixo — explicou. — Uma boa claque ri em três níveis. O baixo, o médio e o alto. O riso baixo é o mais importante. É o que sustenta os outros dois. Sem um bom baixo a claque perde consistência. Perde ritmo.
— Por que foi que o Gervásio saiu? — quis saber o assistente.
— Acho que estava com problemas em casa.
— Tragam ele de volta — ordenou o assistente ao encarregado da claque.
Gervásio não estava com problemas em casa porque não tinha mais casa. Fora destruída num incêndio, junto com todos os seus bens, inclusive a mãe de oitenta anos. A mulher de Gervásio fugira do incêndio para a casa do vizinho, pelo qual desenvolvera uma paixão súbita e ardente que nem os bombeiros — mesmo que tivessem chegado a tempo — conseguiriam apagar. A filha mais velha de Gervásio casara com um estivador inativo que, para não perder a forma, jogava a filha mais velha de Gervásio como um fardo para cima do telhado e a pegava na volta, às vezes. O filho de Gervásio se envolvera com traficantes de tóxico e estava jurado de morte por três delegacias. O encarregado da claque comentou que o Gervásio parecia triste.
— Ânimo, rapaz. O teu valor foi reconhecido. A produção quer você de volta no programa de qualquer jeito.
Gervásio estava com o olhar parado. Não dizia nada.
— A claque decaiu muito sem você. Você precisa voltar, Gervásio.
Gervásio parecia não estar ouvindo.
— Você precisa voltar a rir, Gervásio.
Gervásio começou a chorar.
— Ninguém é indispensável — sentenciou o assistente. E mandou contratarem um substituto para o Gervásio. Alguém da claque recomendou um parente.
— Garantido? — perguntou o assistente.
— Garantido. Ri à toa.
O novo contratado foi um fracasso, no entanto. Ria na hora errada. Dava gargalhadas quando era hora de risinho. Risinho quando era hora de silêncio. E não era baixo. Amelita, a alma da claque, resmungou que como o Gervásio não encontrariam ninguém. Gervásio era um profissional. Sem ele a claque não era a mesma. As risadas não soavam sinceras. Não havia mais espontaneidade. Uma tristeza.
Dessa vez, foi o assistente em pessoa. Encontrou Gervásio no enterro do genro. A filha mais velha de Gervásio caíra do telhado na cabeça do marido, quebrando o seu pescoço. Fora um acidente, mas a família do marido prometera vingança. Queria uma indenização. Gervásio não tinha dinheiro. O que escapara do incêndio a mulher levara. E ainda por cima o filho foragido de Gervásio aparecera no enterro, arriscando-se a ser baleado de três lados. O assistente teve dificuldades em prender a atenção de Gervásio, que olhava nervosamente para todos os lados.
— Você tem que voltar, Gervásio.
Surgiu uma briga. Quem pagaria o enterro? A família do morto insistia que a responsabilidade era do Gervásio.
— Você é indispensável, Gervásio — insistiu o assistente.
Vieram avisar que a polícia estava chegando para prender o filho do Gervásio.
— Sem a sua risada, a claque não é mais a mesma. Volta, Gervásio.
A família do morto tentou agredir a filha do Gervásio. O filho de Gervásio tentou desalojar o corpo do cunhado para poder se esconder da polícia dentro do caixão, o que só aumentou a revolta.
— O que você sabe fazer é rir, Gervásio. Volta.
Foram todos parar na delegacia. Sentado num banco, Gervásio escondia o rosto com as mãos. Ao seu lado, o assistente insistia.
— Volta. Gervásio. Aquilo lá, sem você, é uma tristeza!
Combinaram que, por um aumento de salário, Gervásio voltaria para a claque. Precisava de dinheiro para sustentar a filha viúva, subornar os policiais que caçavam o seu filho e pagar o enterro do genro. Mas a mulher o esperava na saída do estúdio e levava todo o dinheiro. Gervásio pedia mais dinheiro. A verba para a claque era limitada, mas o Gervásio valia tudo que pedisse. Segundo a Amelita, estava rindo como nunca na sua carreira. Um riso aberto, contagiante. O produtor estava satisfeito.
— Isso é que é risada!
E o Gervásio ria, ria de bater o pé. Um profissional, murmurava a Amelita. Um verdadeiro profissional.

Luis Fernando Veríssimo

 

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