Amarrados aos hábitos
Por Mari Molinari
Nos primeiros meses que passei em retiro no RS aconteceu uma situação muito engraçada que escancarou, com um holofote, o quanto eu era uma praticante fake.
Após um período longo de adaptação da rotina, visto que morava em SP e havia construído ali uma vida inteira de hábitos, eu comecei a ficar muito bem com os horários estabelecidos do retiro, com a meditação, as práticas de corpo e o sono. Uma das coisas que eu adorava fazer era o altar. Todas as manhãs, acordava antes do horário da primeira prática e fazia todo o ritual de colocar água nas tigelas, acender o incenso, fazer as prostrações. Toda prática feita no budismo é um símbolo da mente búdica e tem um significado. O altar e todos os seus elementos são a representação do corpo, fala e mente do Buda. Além disso, fazer o altar também nos ajuda a estabelecer uma presença, uma atenção que se estende ao longo de todo o dia. Podemos ter um pequeno altar em casa, não precisa ser nada grandioso. Ainda que a vida seja muito difícil e corrida, fazer um pequeno ritual diário, já nos faz lembrar de voltar a mente para o Buda.
Havia outra pessoa junto comigo fazendo retiro também, mas ajudava com outras atividades e fazia meditação no templo principal, portanto eu passava boa parte do tempo sozinha. Após uns 3 meses, ele foi para outro dormitório e passei a ficar sozinha o tempo todo. Nesse período, eu já estava bem adaptada e mais tranquila. Fazia as coisas no meu ritmo e o altar era exclusivamente “meu”. Estava à vontade, feliz, me achando uma “boa praticante”.
De repente, quando já estava feliz com tudo ajeitado, vieram conversar comigo sobre a chegada de um grupo de pessoas do Cebb BH que também iriam fazer retiro. Na hora senti aquele baque. O baque de ter que mudar. Era um grupo de 4 pessoas. Precisei mover algumas coisas, organizar minhas malas e minha cabeça já começou a criar uma certa ansiedade. O retiro criado em minha mente foi derrubado, apenas por pensamentos sobre a possibilidade de ter que mudar. A ideia de fazer um retiro é realmente estar numa rotina toda organizada sempre do mesmo jeito. Porém, ali eu percebi o quanto de apego eu já tinha criado aos novos hábitos e não gostaria que ninguém os perturbasse. Enfim, o samsara é construído por hábitos.
Na época, não tinha feito as conexões que agora faço dessa situação. Depois que os praticantes de BH chegaram tive que lidar com meus apegos a esse mundo que eu havia criado ali, para me sentir “bem”, para me sentir “feliz”. Meu ego ainda estava manipulando as coisas ao redor. Eles chegaram e quebraram isso e foi ali que uma janela se abriu, um sorriso surgiu. Me vi derrubada, ingênua diante da impermanência e relaxei.
Eles pediram para fazer o altar, pois também queriam ter aquela experiência. Senti raiva quando eles começaram a fazer, pois interromperam a “MINHA” rotina, a “MINHA” organização. Percebi que eu já estava na dependência daquilo para estar bem. E não somos exatamente assim? Somos pessoas felizes, apenas porque temos certas condições.
As condições são aquelas que a sociedade nos apresenta enquanto verdade e aquelas construídas por nossa mente. Por exemplo, a sociedade diz que precisamos ter filhos e casar, aqueles que têm, supostamente são felizes, pois estão dentro do jogo, dentro da máquina. Eles compram uma casa bacana, com chuveiro quente, planejam uma viagem todo ano, depois compram um cachorro e colocam suas fotos felizes nas redes sociais. O lixo vai embora para algum lugar que não sabemos, os carros funcionam e nos levam para onde for, as comidas vêm embaladas em plástico e estão à nossa disposição. O ponto é que tudo isso é feito num automatismo tão brutal, quanto acordar todas as manhãs. Criamos uma dependência em relação a essas coisas externas, que viram nosso mundo, nossos hábitos. Nossa felicidade se mantém lado a lado ao que possuímos.
Não acho que o ponto é virar um yogue das montanhas e deixar tudo para trás, embora essa seja uma ideia muito mística e atraente. O yogue leva a mente dele para onde for, não adianta. A mente do apego vai junto com ele. Talvez ele crie um apego a pedra que se sentou para meditar. Ele irá criar apego aos estados mentais gloriosos que irá chegar durante a meditação. Ele dependerá de uma mente serena e pacífica para estar bem. Enfim, o processo de liberação é longo. Não há fuga para lugar algum.
Outro dia, meu chuveiro quebrou. A sorte é que tenho uma amiga vizinha que me permite entrar na casa dela sem perguntar para que eu pudesse tomar um banho. Contudo, o simples fato de eu ter que mudar a trajetória do meu banheiro para o dela, me fez ficar um pouco irritada. Tive que chamar alguém para consertar e o profissional só poderia vir uma semana depois. Um pequeno samsara se cria quando preciso interromper o fluxo dos hábitos. Eu sou uma pessoa completamente mimada. Uma praticante fake. Minha mente depende do “MEU” chuveiro para que eu possa ser feliz. É bom pensar em todos os mimos e pequenas coisas que estão ao nosso redor que nos mantém algum tipo de sanidade.
A verdade é que a prática começa quando renunciamos aos hábitos, quando renunciamos a essa mente que quer a todo custo se curvar a algum desejo. Quando renunciamos a manipular a vida para que ela se transforme naquilo que foi idealizado. Os desejos precisam ser satisfeitos, do contrário, não sabemos o que fazer com a frustração. A sociedade criou mecanismos vorazes de preencher todos os vazios possíveis com mais desejos, uma tentativa de preencher a impermanência. Não há problema sem uma solução, sem um remédio, sem uma técnica de meditação. Tudo isso para não interromper a continuidade produtiva, a lógica de mercado. Além disso, a sociedade individualizou todos os problemas e o único responsável pelo fracasso é você mesmo.
A vida espiritual é também cheia de ciladas. Transportamos a dinâmica do mundo dos desejos para o caminho espiritual. Queremos continuar a fazer o altar todos os dias do mesmo jeito. Queremos obter muitas coisas pela espiritualidade. Criamos apego a permanência de nossas trajetórias, pois isso nos traz segurança, dentro de um mundo completamente incerto, afogado por guerras reais e agora por guerras virtuais.
A meditação entra nesse lugar de observação dos hábitos, de interrupção dos hábitos. Ela começa a corroê-los, ela quebra nosso fluxo mental doentio, à medida que o ilumina. A simples presença nas ações diárias nos torna mais despertos e podemos ter alguma chance de sermos menos arrastados pelas situações e pelos desejos. Ela, na realidade, é revolucionária, pois é um meio simples, barato e que tem essa capacidade de dissolver estruturas. Apenas a pausa e o silêncio, como meio de revolução.
Vou encerrar com um trecho do livro “Materialismo Espiritual” do mestre Chogyam Trungpa, que fala se conecta com essa questão da renúncia aos hábitos. Um abraço e boas práticas!
“Precisamos de fato, nos entregar, dar alguma coisa, desistir de alguma coisa de maneira muito dolorosa. Temos de começar a desmantelar a estrutura básica desse ego que fomos capazes de produzir. O processo de desmantelamento, de desagregação, de abertura, de renúncia, é o verdadeiro processo de aprendizagem”. (p.103)
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