O Hitler laranja e a queda do império

O ano começou muito mal para a América Latina – e para a humanidade – com um ataque sem precedentes dos EUA na América do Sul. Sob o comando lunático de Donald Trump, o exército americano bombardeou Caracas, capital da Venezuela. Mais de 80 pessoas foram mortas pelas explosões dos mísseis, incluindo civis, e o presidente do país foi simplesmente sequestrado, junto com sua esposa, e levado para ser “julgado” nos Estados Unidos.

As desculpas para o ataque são positivamente ridículas e obviamente falsas. Não há um único naco de evidência de que Maduro é o chefe de um cartel de drogas. O fato de Maduro possui armas não é de causar espanto, se pensarmos que ele é o comandante em chefe do exército venezuelano. (Acredite, essa é uma acusação formal da justiça americana contra o líder venezuelano.)

A notícia mais recente, dada pelo New York Times, é que as danças que Maduro andava fazendo em suas aparições públicas foram a gota d’água para o ataque. Trump e seus ~estrategistas~ consideraram que Maduro estava provocando.

Seria uma notícia estapafúrdia e risível, mas tratando-se de Trump, um sociopata, ególatra e extremamente inseguro (como todo fascista), não é de se duvidar que ver Maduro dançando a rumba tenha sacramentado o ataque brutal e o sequestro de um presidente em exercício.

O crime do homem foi, afinal, ter o molho.

De todo modo, me sinto um pouco idiota ao reabater as justificativas dos EUA para o ataque, já que temos uma grande pista de que na verdade os EUA apenas querem abocanhar o abundante petróleo venezuelano: o próprio Trump e seu vice-presidente disseram isso repetidas vezes com todas as letras. (Enquanto palermas latinos de direita insistiam em repetir a ladainha de que é pela “liberdade” etc.)

Mas nem precisavam ter dito, já que esse roteiro é manjado – se repete há décadas, há séculos. Os países imperialistas, vamos chamá-los de Império Branco (peguei esse termo deste excelente blog de um analista geopolítico do Sri Lanka), vêm achacando, barbarizando, escravizando, matando, roubando e derrubando governos mundo afora há centenas de anos para tentar manter seu poder colonial intacto. Se impõem pela força e derramam o sangue de latinoamericanos, africanos e asiáticos para roubar-lhes as riquezas, os recursos naturais e o poder sobre o próprio destino.

Não importa muito se são os ingleses, os americanos ou os israelenses a capitanear o massacre da vez. O pano de fundo é sempre o mesmo: os brancos imperialistas tentando manter, à força, seu controle político e econômico sobre o mundo.

***

Há algo de diferente, no entanto.

Desde o pós guerra, os EUA vinham aplicando a sua política de terror constante sobre o planeta embalada em um discurso bonito. Todo mundo que estudou o mínimo de história (e não é um completo idiota colonizado) sabe que os americanos invadem países e derrubam governos para manter sua hegemonia global, fazer girar o dinheiro sujo da indústria das armas, roubar petróleo e recursos naturais e, de quebra, “reconstruir” os países destruídos – fiquem tranquilos que nossas empreiteiras farão o trabalho no precinho, 80% OFF! Ainda assim, sempre houve um esforço do governo e imprensa americanos, e de seus representantes nos países colonizados, para apresentar as ações brutais de guerra como empreitadas pela liberdade e pela democracia.

As coisas mudaram neste segundo mandato de Donald Trump.

Falastrão, Trump gosta de revelar o que todos os presidentes anteriores tentavam esconder. Ele e seu entorno dizem com todas as letras que vão invadir o país aqui, derrubar um governo acolá, e que seus objetivos não são nada nobres mesmo.

O mundo, porém, também está mudando. E mudando rápido.

Essas ações intempestivas de Trump são expressão de um Império que está em seus estertores. Os EUA e a Europa já não têm condições de vencer a China em nenhuma área (nem econômica, nem militar). A Rússia é outra potência bélica, e o Sul Global, composto pelos países historicamente invadidos e humilhados pelo Império Branco, se organiza política e economicamente por meio de iniciativas como o BRICS. A hegemonia do dólar, que garantiu uma vantagem econômica gigante aos EUA nas últimas décadas, nunca esteve tão ameaçada.

Por aí se explicam as movimentações intensas de guerra por parte dos EUA, Europa e Israel, cercando a Rússia com a OTAN até fazer explodir a guerra na Ucrânia, massacrando os palestinos em Gaza (o holocausto do século XXI, ao qual o mundo assiste impotente), bombardeando a Nigéria e outros países africanos, e agora sequestrando um presidente na América do Sul.

O Império Branco está em modo fúria, mas isso não é sinal de força, e sim de desespero.

Como diz o Indrajit Samarajva (para análises embasadas sobre a história e o fim iminente do Império Branco, leiam o homem), o Império entrou em sua fase anã branca, a fase em que as estrelas começam a sugar tudo à sua volta, destruindo planetas e outras estrelas. Mas o final é inevitável: a anã branca vai explodir e desaparecer, como uma supernova. E como todos os impérios do passado, do presente e do futuro.

Trump é a cara escarrada do Império decadente, uma caricatura bizarra de um país odiado mundo afora, um sincericida que revela tudo o que os seus antecessores, de ambos os partidos, também eram, só escondiam melhor: déspotas, genocidas, sociopatas. (E Trump ainda é pedófilo, como estão revelando os Epstein Files.)

E nós, aqui ao Sul, temos a pachorra de ler todos os dias a nossa gloriosa imprensa brasileira chamando Nicolás Maduro de ditador. Se Maduro é um ditador, com que palavras designaríamos Trump e todos os sanguinários presidentes americanos?

A imprensa brasileira (Folha, Globo, Band, Estadão etc.) nem deveria ser chamada de imprensa, já que na verdade é apenas uma assessoria de imprensa dos donos do dinheiro, nacionais e importados. A propaganda de décadas da CIA fez com que até boa parte da esquerda torcesse o nariz para Maduro.

Mas que moral temos nós para falar das eleições na Venezuela? O Congresso brasileiro é formado basicamente por latifundiários e pastores evangélicos, eleitos com o dinheiro sujo das grandes empresas e corporações. Os congressistas trabalham para quem financia suas campanhas, e não para os 99% da população. Nossa democracia é melhor que a Venezuelana?

Já a democracia americana é uma piada de mau gosto. Os dois partidos que se revezam no poder prestam contas a quem realmente manda por lá: os bilionários, as petroleiras, a indústria das armas.

E os opositores ao chavismo na Venezuela? São iguaizinhos à direita brasileira e latinoamericana em geral: traidores da pátria, vendidos que prometem entregar seu país aos gringos em troca de regalias pessoais.

E Maduro, o líder de um país achacado pelos EUA desde sempre, que sofre com sanções econômicas brutais e milagrosamente resiste, é o ditador? Tenhamos vergonha na cara, por favor.

Curiosamente, os EUA só se importam com a democracia em outros países quando há petróleo envolvido e o governo não é submisso a eles. Isso deveria ser suficiente para ninguém levar a sério a propaganda da CIA sobre qualquer líder de um país não alinhado aos EUA. Mas esse roteiro é mais velho que a CIA.

A infame Guerra do Paraguai, por exemplo, foi consequência do mesmo tipo de maquinação odiosa. Os imperialistas (era a Inglaterra o centro do Império Branco, na época) acusaram o presidente do Paraguai, Franciso Solano López, de ser um bárbaro ditador. Seu crime? Construir um país minimamente justo e soberano. Armaram uma guerra brutal, na qual os exércitos do Brasil, da Argentina e do Paraguai massacraram os paraguaios.

Talvez isso seja o mais triste: se os colonizadores não tivessem, sempre, o apoio de setores dos países colonizados, jamais teriam sucesso.

***

A arrogância delirante de Trump e dos EUA lembra a arrogância de Hitler, que zombou do pedido de Roosevelt para que não invadisse mais países. Invadiu, matou, espalhou sua ideologia supremacista imbecil. Parecia invencível. Até que foi derrotado pelo exército soviético (e não pelo americano, como nos ensinaram os filmes de Hollywood; e tem gente que não acredita na propaganda da CIA…).

Trump entrou, de fato, em modo full Hitler: delirante, agressivo, arrogante e com planos de submeter o mundo por meio da força bruta. Nem seus aliados europeus ousam enfrentá-lo. Os líderes da França e da Inglaterra, por exemplo, não foram capazes de condenar a óbvia violação das regras internacionais (que, se ninguém respeita, não são realmente regras, certo?) no sequestro de Maduro. E certamente vão abaixar a cabeça pateticamente quando Trump colocar em prática sua próxima meta, anexar a Groenlândia (que pertence à Dinamarca).

Mas não se trata de falta de coragem dos europeus, a bem da verdade. Eles são como o Hitler laranja: imperialistas, colonizadores. Se nazismo é a desumanização de grupos humanos para violentá-los e eliminá-los, a Europa e os EUA tem expertise em nazismo. O nazismo não é exclusividade de Hitler; é o modo padrão de operação dos imperialistas colonizadores dos EUA e da Europa, que escravizam e matam populações inteiras, se necessário, para manter sua hegemonia.

Mas os impérios, mesmo os mais sanguinários, não duram para sempre.

O mundo está mudando.

As coisas parecem que não vão mudar, especialmente se durarem séculos. Parecem sólidas.

Até que mudam.

Um império parece invencível, até que não é mais.

Maduro era um político contestado até pela esquerda. Agora, depois da ação brutal e nonsense americana, tende a se tornar um mártir, um herói, um símbolo da luta pela libertação dos povos.

E, convenhamos, a posição de herói lhe cai muito bem. O homem foi sequestrado e está preso em Nova York, o coração do Império, e segue farmando aura, como dizem os jovens. (Se você não sabe o que é isso faça como eu fiz essa semana e dê um google.)

Fascistas posam de machões, mas quando enfrentam as consequências dos seus atos não demonstram o menor pingo de dignidade e coragem – todos estamos vendo a patética choradeira de Jair Bolsonaro e seus filhos, outrora valentões defensores de torturadores, ditadura militar e golpe de estado.

Enquanto isso, Maduro, capturado pelo império mais brutal da história da humanidade, aparece altivo em todos os vídeos e fotos, fazendo o V da vitória com as mãos algemadas, dando “happy new year” e “good night” em alto e bom som aos agentes que fazem a sua guarda.

No dia do sequestro de Maduro fiquei muito ansioso com a iminência de uma invasão ou uma guerra em um país vizinho ao nosso. Estava chocado com a audácia dos gringos, com raiva da sua arrogância e brutalidade. Mas à noite, quando vi essa cena, fui dormir mais tranquilo.

Diante do juiz americano que irá “julgá-lo”, Maduro estabeleceu a verdade:

Sou Nicolás Maduro Moros, o presidente constitucional da República Bolivariana da Venezuela. Fui sequestrado no dia 3 de janeiro por uma intervenção militar dos Estados Unidos. Me considero prisioneiro de guerra, me acolho às convenções de Genebra e de Viena. Fui capturado em minha casa na Venezuela.

A verdade e a justiça estão ao lado dos povos oprimidos do mundo. A mentira e a força bruta não prevalecerão.

As ações tresloucadas do Hitler laranja vão causar ainda muito estrago no curto prazo, mas vão acelerar a queda do Império.

A lei do karma é muito simples: a cada ação surgem resultados correspondentes. Ou seja, é impossível você comprar briga com o mundo inteiro e não sofrer as consequências em algum momento.

Assim como é impossível parar o curso da história à força.

O karma e a impermanência são infinitamente mais implacáveis do que qualquer poderio militar.

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Por Pedro Renato

 

 

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