Uma pequena cachorra e um amor infinito

 

Me perdoem o título absolutamente piegas do presente texto, mas às vezes o piegas (e o brega e o clichê também) é o que mais se aproxima da verdade sobre as coisas.

Já faz algumas semanas que a Lenis (ou Neni ou Nenoca ou Nikita) fez sua passagem, e desde o fatídico dia eu sabia que teria que escrever alguma coisa sobre o acontecido.

A morte é tão impactante, diria até espetacular, de certa forma. Ela tem o poder de mudar de forma drástica a mente dos seres que a veem mais de perto.

A Nenoca foi meio de repente. Tava velhinha, com seus 17 anos – tipo uns 90 em anos humanos – mas tava bem, enxergando, andando normalmente, comendo em quantidade e frequência joviais.

Por volta de um ano atrás eu recebi a notícia das médicas de que ela tinha um problema no coração, e que ela poderia ter um piripaque a qualquer momento, mas que tomando o remédio direitinho o coração pararia de crescer e ela ficaria bem.

Mas por quanto tempo, né?

Ninguém vive pra sempre, e de repente o fato de que a Lenis iria morrer, e que isso não demoraria tanto assim, caiu sobre a minha cabeça como um piano de desenho animado cai sobre a cabeça de um transeunte desavisado.

E eu chorei enquanto andei pelas ruas de São Paulo com ela a tiracolo, dentro da mochila, enquanto ela apenas apreciava o passeio, satisfeita por ter ido embora daquele lugar terrível onde costumavam lhe infligir torturas medievais (a veterinária).

Os meses passaram e eu fui esquecendo do fatídico fato, e a Lenis melhorou, com o uso de outro remédio, das dores que tinha pelo corpo e até parecia mais animada e disposta a permanecer no meu colo por mais tempo, recebendo carinho.

Mas aí um dia eu e a Dafne voltamos da academia apenas a tempo de ver a mente dela abandonar o corpo de cachorrinha, que ficou inerte nos meus braços enquanto o motorista do Uber acelerava o carro para tentar nos ajudar a salvá-la. Eu mantrei no ouvidinho dela e a Dafne fez carinho o tempo todo até o hospital, mas não teve jeito.

Depois que alguém que a gente ama se vai fica o vazio, o buraco.

Acho que isso é o mais estranho, talvez o mais difícil de lidar. Porque a criatura tava ali, todo dia, sempre disponível. Como ela simplesmente desaparece?

É muito estranho.

Provavelmente porque temos a tendência de reificar as coisas, ou seja, de considerar que o que vemos, ouvimos etc. é realmente existente. Não percebemos que tudo é, na verdade, um constante fluxo de micromomentos de aparições totalmente impermanentes. 

Não há entidade fixa em lugar nenhum. Não há estabilidade. Nem mesmo nos seres que amamos profundamente e na nossa relação com eles.

Falhamos em perceber isso, consideramos que os seres existem como entidades fixas e imutáveis, nos apegamos, e aí quando aquele fluxo de consciência deixa o corpo físico pra trás, tudo desaba e fica um gosto amargo na boca e o mundo de repente é cinza e sem graça e sem sentido.

Chorei como uma criança em alguns momentos dos dias seguintes e depois, com a ajuda das gloriosas e abundantes distrações da vida moderna, não chorei mais.

O luto da Dafne é mais demorado e profundo, mas ela tá melhorando também. Seguimos fazendo práticas budistas e dedicando pra Nenoca, pra ajudá-la nesse período pós morte, onde a mente passa pelo bardo de darmata, ou o bardo da realidade, quando lida com as projeções do seu próprio karma e encaminha seu próximo nascimento. (O ser também pode alcançar a iluminação nesse período, e aí não há mais nascimento por karma.)

Eu viajei na semana passada pra jogar um campeonato de futebol. Fiquei numa casa com mais de dez amigos, ou seja, não foi o melhor período do ano de prática espiritual pra mim.

E então aconteceu algo que achei curioso: nos raros momentos de lucidez da semana, quando eu lembrava de soltar das minhas identidades e olhar as coisas com uma visão um pouco mais ampla, instantaneamente a Lenis surgia no meu campo mental. Nesses momentos eu aproveitava pra fazer mantras pra ela.

Fiquei pensando nesse poder da Lenis e de todos os cachorrinhos de despertar um amor poderoso, transcendental, infinito na gente.

Quando eu era (bem) jovem não gostava de cachorros; sempre preferi os gatos. Depois do meu pai providenciar o primeiro cachorro da família, é claro que a minha opinião mudou.

Mas foi depois de morar com a Lenis, a partir da pandemia, que meu coração se abriu e eu passei a amar todos os cachorros e a amar mais todos os bichos do mundo.

A Dafne se mudou pro meu apartamento na pandemia, e levou a Lenis a tiracolo. Ela já era uma senhora temperamental, com seus 12 anos de idade. Os anos foram passando e a Nenoca foi ficando cada vez mais rabugenta e mandona. Sua postura blasé e sua perícia na arte de fazer joguinhos e manipulações emocionais para conseguir comida e carinho não encontraram resistência da minha parte, e desse jeitinho ela despertou em mim um amor que de tão grande parece infinito.

Não tô falando nenhuma novidade aqui pra qualquer um que tenha amado um animalzinho. Ainda assim, não deixa de ser impressionante essa capacidade que eles têm de despertar na gente os sentimentos mais elevados, simplesmente por existirem e serem do jeito que são.

A existência como um animal não é muito favorável, na visão budista.

Os animais dão um jeito de satisfazer suas necessidades básicas (proteção, alimento, conforto) e não conseguem ir muito além disso. Eles não têm capacidade de entender os ensinamentos que conduzem à liberação da mente; os seres humanos têm, e por isso a vida humana é considerada preciosa.

Ainda assim, o amor e a compaixão podem se manifestar em todos os reinos do samsara, e podemos ver isso facilmente observando os instintos de cuidado, de proteção, de carinho e amor que os animais manifestam.

Além disso, essa capacidade de despertar um amor oceânico em quem convive com eles é, com certeza, especial.

A gente aqui fica com saudade, fica com medo porque não podemos mais protegê-la. E ao mesmo tempo confia que os budas e bodisatvas estão guiando a Nenoca da melhor forma possível.

Não há o que temer, afinal. A morte nem existe. Quando a visão amplia, brotam a sabedoria e o amor.

Tudo é uma manifestação mágica da realidade absoluta, inclusive a Lenis, você, eu e os nossos pequenos problemas.

E os fluxos de consciência vão se cruzando e reencontrando, infinitamente.

Escrito por Pedro Renato

***

Conheça a nossa comunidade de estudos e práticas budistas, a Ekadanta.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *