A medida necessária do mundo
Há muito tempo que o Lama Padma Samten oferece ensinamentos sobre o Satipatthana Sutra. No tempo que estive em retiro, tive a oportunidade de ouvir ensinamentos sobre esse texto várias vezes e ele se tornou um roteiro base para as práticas de meditação em silêncio. É muito importante, principalmente no início, que tenhamos algum roteiro de contemplação, pode ser um livro, um ensinamento, os sutras etc. A ideia é que essas palavras se tornem uma referência para que aos poucos a gente crie uma intimidade com a linguagem e vá estabelecendo uma rotina no dia a dia para praticar. Vagarosamente, povoamos nossa mente com o darma, o que confere uma grande mudança em nossos hábitos. Não importa o que irá acontecer enquanto contemplamos, pois, por vezes, nossas avaliações e julgamentos são uma grande barreira para irmos em direção a um aprofundamento. O importante é a continuidade, a constância.
No caso dos sutras, é interessante assistir ou ler os comentários dos mestres, porque a linguagem difere muito da utilizada em literatura comum, por exemplo. E, sem dúvida, os professores sempre apontam para lugares mais sutis e simbólicos dos textos, trazendo nuances que, provavelmente, nós não iríamos alcançar. Mais uma vez, cito o querido Lama Samten, que vem oferecendo muitos estudos das palavras do Buda.
Durante o retiro, ao adquirir familiaridade com o Satipatthana, percebi que pude estabelecer uma base para observar todas as experiências que surgiam das mais infinitas formas. O texto é um roteiro completo que te guia de mãos dadas, como uma mãe segurando seu filho que pacientemente vai mostrando o mundo ao redor. Entretanto, ao mesmo tempo que é um guia preciso, conforme seguimos nos aprofundando, o texto também nos leva a um lugar inconclusivo e aberto, nos convidando a um belo desconforto. O Buda, de maneira tão hábil, coloca um questionamento sobre o que chamamos de “eu” e “meu”. E o primeiro tópico é sobre a respiração e o corpo. Vou colocar um trecho para ficar mais claro:
Dessa forma ele permanece contemplando o corpo como um corpo internamente, ou ele permanece contemplando o corpo como um corpo externamente, ou ele permanece contemplando o corpo como um corpo tanto interna como externamente. Ou então, ele permanece contemplando fenômenos que surgem no corpo, ou ele permanece contemplando fenômenos que desaparecem no corpo, ou ele permanece contemplando ambos, fenômenos que surgem e fenômenos que desaparecem no corpo.
Vejam que não está escrito “olhe o seu corpo, como seu corpo, com belas formas, diferenças e etc”. Ou “pense na história do seu corpo e do quanto ele é importante”. É apenas “o corpo, como um corpo”, os ” fenomenos do corpo, como fenômenos do corpo”. Não há privilegiados, não há ninguém especial, nossa identidade não funciona aqui. As contas no Instagram seriam todas deletadas. Nada é tão espetacular quanto achávamos. E “isso” que somos, se manifesta de um certo jeito. Apenas. O Buda deixa escancarado nossa pequenez, nossa ingenuidade diante das coisas.
Muitas vezes, apresentamos uma certa preferência por certos tipos de textos e ensinamentos, e podemos ser levados a um lugar mental um pouco mais fantasioso do budismo, especialmente por ir de encontro a nossa idealização do “caminho espiritual”. Podemos ler e pensar “isso é muito elevado” ou achar que somos muito especiais por estarmos em contato com aquilo. E sim, de fato, é maravilhoso que tenhamos uma conexão com o Darma e com tudo que nos é apresentado. Logo que comecei a ir ao CEBB, lembro de ler algumas coisas sobre vacuidade e me senti excepcional e única, por estar em contato com aquele tesouro. Foi muito precioso e me direcionou a uma curiosidade que se manteve para que eu pudesse seguir. O caminho é muito diverso e tem mil portas de entrada. Porém, é interessante também considerar uma certa distância para que não tomemos posições ou conclusões equivocadas acerca desses temas que são muito complexos. Criar opiniões, tirar conclusões, propor ideias e conceitos, construir identidades a partir do conhecimento, tudo isso é o que estrutura nossa vida social e nossas relações. A proposta do Buda é bem diferente disso e muito mais feroz.
A contemplação desse texto nos coloca no lugar de um observador aberto, pois conforme seguimos item por item, revelamos a abertura de nossos mundos que até então estavam escondidos, observamos a imensidão das coisas e como elas vão muito além daquelas palavras e bem além de qualquer caixinha que possamos insistir em permanecer. E tudo se abre justamente porque o texto é direto, é simples, não há excessos, não conseguimos gerar uma identidade que se mistura com o que é lido. Ele é construído com pouca coisa, para que tudo nele brote, para que todos os conceitos se ampliem, para que as estruturas cármicas possam desabrochar. É o oferecimento da liberdade. Observamos o corpo, a respiração, os desejos, os sentidos, as sensações, a mente, o sofrimento, e vemos tudo aquilo que se abre a partir deles.
À primeira vista, podemos sentir que as palavras são um tanto áridas, por serem tão diretas, e desanimar, indo em busca de outras fontes que nos causam mais impacto, como já foi citado anteriormente. Um texto mais rebuscado, uma narrativa mais interessante. É natural, andamos dessa maneira a vida toda. Vamos atrás das energias mais brilhantes. Só que o Satipatthana e os demais sutras, necessitam de tempo, eles necessitam que os tomemos como um relacionamento de longo prazo e sem perspectiva de divórcio, porque sua beleza se apresenta no silêncio. No livro da biografia da Dipa Ma, já comentado aqui na plataforma, ela oferece uma lição importante: ficar com alguma prática de meditação por um tempo.
Então, após a construção de um namoro mais longo com a prática, começamos a habitar um lugar mais estável que olha para as experiências com menos solidez, começamos a olhar somente “na medida necessária”, termo que é citado no Satipatthana. Essa é a chave. Olhe o mundo somente na medida necessária,nem para mais, nem para menos. Um grande desafio. Como vou olhar para o meu corpo apenas na medida necessária? Para os meus desejos? Para os meus familiares? Deixo aqui a pergunta aberta para contemplar.
Por meio dessa base mais estável, o mundo todo começa a se oferecer como prática. Aquilo que vejo não é mais “meu”, não sou “eu”. Encontro-me com todos os seres que sofrem e percebo que, no fim, temos todos os mesmos contornos. É como se eu me perdesse de mim mesmo e fosse de encontro à luminosidade ampla da vida. Começo a perceber tudo “na medida necessária”. Vejo que a todo tempo, a todo segundo, há mil corpos sendo criados, há mil mentes em locais diferentes sendo criadas para cada som, há mil pessoas que aparecem, há todos os parentes que já se foram, há todas as Marianas que já morreram, há mil sensações, há mil cenas, mil narrativas. São os “bilhões de universos” que habitamos a cada segundo. As identidades caem, como a cortina do teatro desce no fim da peça.
Em muitos momentos, nas tardes de silêncio do retiro, eu só percebi o corpo como algo pairando no tempo e espaço. Eu estava ali, somente na medida necessária para estar ali.
Clique aqui para ler o Satipatthana Sutra, caso tenha interesse em se aprofundar.
Escrito por Mari Molinari
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