O que você pensa NÃO VAI acontecer
Eu lembro de ouvir esse ensinamento numa viagem de carro pro Guarujá, numa fase em que eu estava muito mais ansiosa do que normalmente já era.
Fiquei ruminando a ideia e vi que era verdade: na maioria das vezes, aquilo que imaginamos que vai acontecer não se concretiza. E, quando acontece, nunca é do jeito que a gente previu. Nunca. Sempre vem de forma diferente, ou com algum detalhe inesperado.
Então por que temos essa mania de tentar adivinhar o futuro? Ou, na verdade, por que costumamos viver antecipadamente situações inventadas na cabeça? Seria uma tentativa de autoproteção? Ou só a criatividade da mente se entretendo com uma novela mental, como se fosse uma série sem fim? Talvez até uma fuga do tédio?
Recentemente li sobre um estudo da Universidade da Pensilvânia em que pediram aos participantes para escreverem algo que temiam que pudesse acontecer em até 30 dias. O resultado: 91% das catástrofes mentais não se concretizou. Dos 9% que realmente aconteceram, uma parte nem foi tão ruim assim.
Sinceramente, alguém se surpreende com isso?
Tá bem, eu confesso: a minha fonte dessa informação veio do instagram (mas eu fui checar e esse estudo existe!). Foi um criador de conteúdo que recomendou que as pessoas repetissem esse exercício, justamente para provar à própria mente que a maior parte dos medos é só imaginação. Não precisamos sofrer por antecipação.
Segundo ele, ao fazer isso, os participantes relataram sentir uma melhora significativa na ansiedade e antecipações dos medos.
Quer tentar comigo agora? Você faz aí e eu faço aqui.
- Eu tenho medo de estar com alguma doença gastrointestinal séria.
- Tenho medo de ficar totalmente sem dinheiro, sem ter onde morar.
- Tenho medo de não conseguir terminar de editar o vídeo do YouTube que planejei para amanhã (que é sábado). Se eu conseguir postar, comenta lá? 🙂
Afastar essas “nóias” mentais já é um primeiro passo. Depois que a historinha se desfaz, o que sobra no corpo é uma “energia estranha”. Sabe? Uma ansiedade, um calor nas axilas, aperto no peito, falta de ar, coração gelado… cada um sente de um jeito.
No budismo tibetano, existe um ensinamento sobre os Lung (ou ventos internos). Eles se manifestam no corpo em conexão com os cinco elementos — terra, água, fogo, ar e éter. Esses ventos são as forças sutis que movimentam nossos pensamentos, emoções e até a vitalidade. Quando estão equilibrados, sentimos clareza e presença. Quando estão desequilibrados, nos arrastam para padrões de ansiedade, raiva, letargia…
Sabe aquela raiva quente que explode de repente, sem aviso? Isso é o lung do fogo em ação. Se conseguimos reconhecer essa energia, ganhamos espaço para não sermos levados por ela.
Foi lá no carro indo para o Guarujá que eu realmente comecei a prestar mais atenção nos Lungs. E acho que agora é um bom momento para voltar a eles.
No meu caso, ando com muito sono e uma sensação de desligamento — talvez um sinal de que o lung da terra está fraco. Já as viagens mentais, minhas velhas conhecidas, têm muito a ver com o lung do ar ~descontrolado.
No fim, aprender a soltar a importância dos pensamentos não é cair num vazio sem nada. É mais como tirar as palavras de uma canção: de repente, você consegue ouvir melhor as notas, perceber as cores, os movimentos, a música inteira que estava por trás do barulho das letras.
Escrito por Dafne Ramos
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Quer dar uma desapegada desses pensamentos e contemplar uns ensinamentos budistas com a gente? Vem conhecer a nossa comunidade de estudos e práticas budistas, a Ekadanta.